terça-feira, 30 de outubro de 2007

Eu Sinto Uma Dor no Peito

ARRAIOLOS
José António Paulo (58 anos) – Ano 1977

MOTE
Eu sinto uma dor no peito
Ao lado do coração
É causada a teu respeito
Tens o remédio na mão.
I
Escutai se puder ser
Quero-te contar minha vida
Tu és a mulher mais querida
Não posso estar sem te ver.
Podes acabar de crer.
Compunhas um vaso perfeito
Não te falto ao respeito
Só tu és do meu agrado
Estou por ti apaixonado
Eu sinto uma dor no peito.
II
Escutai donzela pura
Acredita que é verdade
Na flor da mocidade
Vou-te contar minha jura
Só tu és a criatura
A quem dava a direita mão
Eu sofro de uma paixão
Já não tenho liberdade
Por ti sinto uma saudade
Ao lado do coração.
III
Amor pede à tua mãezinha
Repara o que te digo
Diz-lhe que é para falar comigo
Essa vontade é a minha
Escuta Mariazinha
Trata a tua mãe com muito jeito
Não lhe faltes ao respeito
Mas faz sempre o teu agrado
Trago o meu sentido enleado
É causado a teu respeito.
IV
Dá-me a tua fotografia
Eu doutra já não pretendo
Podes crer que eu em te vendo
Meu peito enche de alegria
Lembras-me de noite e de dia
Eu trago-te no coração
És uma rosa em botão
Eu isto afirmo em geral
Vem dar alívio ao meu mal
Tens o remédio na mão.

sábado, 27 de outubro de 2007

Fundamento "A Rainha Santa Isabel" 6.º Episódio

MESTRE 100ª
Nós temos muitas despesas
Pedimos uma ajudinha
Qualquer moedazinha
Agradecemos com delicadeza
Quem quiser ter a fineza
Podem para a roda deitar
Os fastudos vão apanhar
E vão para o saco meter
Para ver se pode ser
A nossa despesa pagar.

Cantiga
1.ª
ESTRIBILHO
Da cidade de Elvas
Vê-se Badajoz
São prados e relvas
São de todos nós
2.ª
Caminhos desertos
De antigamente
Fala toda a gente
Destes feitos certos
3.º
Foi um Português
Que na Espanha entrou
O Estandarte sacou
Firme e com altivez.

4.ª
ESTRIBILHO
Da cidade de Elvas
Vê-se Badajoz
São prados e relvas
São de todos nós
5.ª
Numa manhã fresca e bela
Firme no seu cavalinho
Por amor duma donzela
Fez este feito sozinho.
6.º
Sempre ouve a falsidade
Fecharam as portas da cidade
O Português foi apanhado
Para a Espanha foi levado
Com instintos de crueldade.
7.º
ESTRIBILHO
Da cidade de Elvas
Vê-se Badajoz
São prados e relvas
São de todos nós
8.ª
Morreu mas sem glória
O estandarte cá ficou
Sua amada se suicidou
Isto não reza a nossa história.
9.ª
São feitos passados
Não são apagados
Da mente do povo
Hoje vêm de novo
Serem recordados.
10.ª
ESTRIBILHO
Da cidade de Elvas
Vê-se Badajoz
São prados e relvas
São de todos nós
11.º
Lá o caldeirão
Cá o estandarte
A recordação
Sempre em toda a parte.
12.ª
O Governador
Foi bem compensado
Foi decapitado
Porque foi traidor
13.ª
ESTRIBILHO
Da cidade de Elvas
Vê-se Badajoz
São prados e relvas
São de todos nós
14.ª
Dois morreram por amor
Um morreu pela traição
As coisas assim se dão
Tudo tem o seu valor
Feito agora por um autor
Em jeitos de reinação.
15:ª
Viva o Grupo e a mocidade
Viva o povo em geral
Viva o nosso Carnaval
E a nossa linda cidade
É uma jóia e uma beldade
Do Alentejo é Capital
Viva o nosso Portugal
Viva! Viva a Liberdade.

AFONSO Sou soldado português
Fui o Estandarte buscar
Mas foram-me falsear
Morri! Mas só se morre uma vez
Voltas à cidade dei três
E não tocaram a rebate
Se eu tivesse um bacamarte
Não me apanhariam não
Eu fui frito num caldeirão
No Grupo do Estandarte

TERESA
- Décima do Grupo –

Contra o impulso do amor
Não deve haver contradição
Porque muda o coração
Cheio de querer e vigor
O meu pai foi um traidor
Na minha morte teve parte
Quando algum por amor se mate
Deus perdoa e vai para o céu
Sou uma noiva sem véu
No Grupo do Estandarte.

GOVERNADOR
- Décima do Grupo –

Assim fui decapitado
Tudo isto mereci
Esta sorte decidi
Eu podia ser galhardeado
Aquele valente soldado
Criou forma em toda a parte
Quem duma janela salta
Encontra morte honrosa
Assim perdi minha filha formosa
No Grupo do Estandarte.

COMANDANTE ESPANHOL
- Décima do Grupo –

Comandei a perseguição
O terror de Portugal
Contra aquele canibal
Que entrou na procissão
Muitos caíram para o chão
Nem se pode dar combate
Ouviu-se tocar a rebote
Ele o nosso pendão levou
Mas a sua ousadia pagou
No Grupo do Estandarte.

COMANDANTE ESPANHOL
- Décima do Grupo –

Aquele maldito cão
Que o nosso Estandarte levou
Este caldeirão o fritou
Aqui na nossa nação
Sendo eu o capitão
Ia disposto ao combate
Corremos por toda a parte
Nunca vimos os Lusitanos
Eles são grandes desumanos
No Grupo do Estandarte.

SOLDADO ESPANHOL
Eu fiz a perseguição
Àquele português malvado
Mas foi por nós apanhado
A história dele não reza não
Ficou a nossa Nação
Sem aquela jóia de arte
Eu chamo-me Júlia Duarte
Natural de Badajoz
De memória fica em todos nós
No Grupo do Estandarte.

VELHA
- Décima do Grupo –

Fiquei a tremelicar
Senti a espada no pescoço
Até sinto aqui um caroço
Que custo a mastigar
Eu estava a lavar
Vi o grupo de combate
Correram por toda a parte
Eu rezei o meu responso
Apanharam o Afonso
No Grupo do Estandarte.

1.º PALHAÇO
Eu fui o Papa-sal
E gosto do meu copinho
Sou filho de S. Martinho
Sou um ser divinal
Até não sei dizer mal
E toda agente me bate
Só desejo o baluarte
Quando me cai cá pela frente
Sou um rapaz bem decente
No Grupo do Estandarte.

2.º PALHAÇO
- Décima do Grupo –
Trocámos o pendão
Pelo caldeirão
E que sou
Belo azeitinho
Sabe a toucinho
E para o teu vizinho
Eu só quero vinho
E do branquinho
Beber é a tua arte
No Grupo do Estandarte

3.º PALHAÇO
- Décima do Grupo –
Foi aqui que foi fritado
Por ter o pendão roubado
Aquele maldito português
Já cá não volta outra vez
Ainda cabem cá mais três
Quem num espanhol bate
Ou mesmo que o mal trate
Vem para este caldeirão
É como o João Ratão
Cá no Grupo do Estandarte.

REI
- Décima do Grupo –
Aqui no nosso país
Não há lugar para traidores
Assim morreram dois amores
Mas eu a justiça fiz
A boca do povo diz
Que todos os traidores se mate
A hora foi de arrebate
Eu cheguei na hora H
Mas o pendão ficou cá
No Grupo do Estandarte.

ACORDEÃO
Quando puxo pelo fole
Trás sempre um tom positivo
É um som administrativo
Que não é duro nem é mole
À chuva ao vento e ao sol
Aqui e em toda a parte
Assim não há quem me bate
Eu aqui sou o melhor
Toco sempre em ré menor
No Grupo do Estandarte.

BANDEIRA
- Décima do Grupo –
Quem sabe compreenderá
Porque tens estes predicados
Teus feitos não são igualados
É Deus que condão te dá
Um anjo te guardará
Por causa do pecador
O teu lindo resplendor
Ilumina a nossa alma
Tens serenidade e calma
No Grupo do Estandarte.

MESTRE
- Décima do Grupo –

Tive a minha formação
Para isso eu estudei
Fui assim que me formei
Com a mais alta distinção
Ganhei uma condecoração
Dei provas da minha arte
Julgo que ninguém me bate
Nesta coisa de mandar
Sei me bem apresentar
No Grupo do Estandarte.

MESTRE 101.ª
Terminou sim términos
Terminar é chegar ao fim
Agradecemos o pilim
A quem nos ajudou
Gratos a todos estou
Que nos tiveram a ouvir
Nós temos que seguir
Para outro lugar
Um abraço a todos vou dar
E um adeus a sorrir.
(Fala para o Povo)
MESTRE 102.ª
Temos que ir a outro lugar
De tudo peço desculpa
Querem lá nossa presença
Caso contrário tudo caduca
Que não lhe sirva de ofensa
Cada um seu lugar ocupa
E vamos então já marchar
Quando a sua ordem soar
E de tudo peço desculpa.
(Despede-se do patrão)

MESTRE 103.º
Até para o ano se Deus quiser
Saúde e felicidade
Deseja-te esta mocidade
Para si e para a sua mulher
Que não venha a Lúcifer
Sua Excelência perturbar
Que Deus a vá acompanhar
Na sua vida presente
Estimado por toda a gente
Queira-me a mão apertar.
(Despede-se do patrão).

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A Lenda da Igreja de Nossa Senhora da Fonte Santa








Há muitos, muitos anos, um cabreiro que andava guardando um rebanho de cabras, disse um dia à sua patroa, que tinha achado uma boneca muito bonita.
A patroa, que habitava no monte do Touril, disse ao cabreiro:
Então traga-a cá para a gente ver.
No dia seguinte o cabreiro saiu para guardar as suas cabras, de que ele gostava muito, e quando chegou ao local onde tinha achado a boneca, lá estava ela novamente. Apanhou-a, todo contente, colocou-a dentro do alforge onde levava a merenda, e foi mostrá-la à sua patroa. Qual foi o seu espanto quando abriu o alforge para tirar a boneca, e ela não estava lá.
Ora essa, então tenho a certeza que a meti aqui dentro e não está cá? A patroa, disse ao cabreiro para voltar ao local para ver se encontrava a boneca, e que lhe a troussesse.
No dia seguinte, o cabreiro lá foi e encontrou novamente a boneca. Mas desta vez, voltou a colocá-la dentro do alforge, atou-o muito bem para a boneca não sair, e foi para o monte, para a mostrar à patroa. Quando lá chegou, abriu o alforge, e quando ia a puxar por ela, a boneca tinha desaparecido. Foi então que a patroa sensibilizada e apreensiva lhe disse, que era uma Santa.
A notícia rapidamente se espalhou pelas redondezas.
Os devotos, pensaram contruir uma igreja junto a um monte que ali existia, chamado monte das Ermitoas que ficava ligeiramente mais acima da fonte que existia na margem direita da ribeira do Lucefécit. Então os alvenéus deixavam a cal e outros materiais, junto ao monte das Ermitoas. No dia seguinte, quando lá chegavam os alvenéus, a cal estava seca que nem uma rocha, e ainda hoje lá está, enquanto que o resto dos materiais apareciam junto à fonte. Isto aconteceu tantas vezes, que os devotos desistiram daquele local, e decidiram fazer a vontade à Santa, construindo a igreja junto à fonte. E assim, ficou a chamar-se, Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Fonte Santa.
Luís de Matos

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Amigo Dionísio Mendes

S. Tiago Maior
Manuel Romão Mendes – “Ti Romão” (71 anos) Ano 1977
I
Amigo Dionísio Mendes
Cada um na sua arte
Tu roubávas-me na farinha
E eu roubáva-te os tomates.
II
Todos nós temos defeitos
E puros não o somos
Mas tudo o que nós fazemos
Também já nos têm feito
Não acho justo nem há direito
Não sei se assim o entendes
Naquilo que agente vende
Estar a roubar os fregueses
Mas agente fá-lo tantas vezes
Amigo Dionísio Mendes.
III
O criado rouba o patrão
O patrão rouba o criado
Cada um rouba para seu lado
Naquilo que pode deitar a mão
Se alguém disser que não
Está a fugir ao encarte
Não há ninguém que se farte
Que seja rico que seja pobre
Todos roubam o que podem
Cada um na sua arte.
IV
Quando eras principiante
Logo eu comecei a ver
Mais tarde vinhas a ser
Amigo meu semelhante
Todo o homem negociante
Puxa a brasa à sua sardinha
A tua ideia é igual à minha
O meu sentido é igual ao teu
Pois ainda não me esqueceu
Que tu roubávas-me na farinha.
V
Mas eu cá não me ralava
Com o que tu me fazias
Daí a dois ou três dias
Depressa me as pagávas
Das coisas que me compravas
Nem uma vez te escapáste
Deixemos isso de parte
O que eu te digo decerto
É que tu és muito esperto
E eu roubáva-te os tomates.

Ó Velha Aldeia da Serra

Aldeia da Serra
José Ricardo Domingos (57 anos) Ano 1977

MOTE
Ó Velha Aldeia da Serra
Encontras-te modernizada
Quem te conheceu e quem te conhece
Já não te pareces nada
I
Na minha vida de rapaz
Os carros na minha rua
Andavam mais de recuas
Subir não eram capaz
Vejam a diferença que faz
Nesta minha pequena terra
Quem nisto tudo governa
Por mim será lembrado
Aqui me tens ao teu lado
Ó velha Aldeia da Serra.
II
Tens um posto de educação
Todos sabem corrigir
Sem andarem a pedir
Qualquer explicação
De dentro do coração
Por mim és bem estimada
Por ver que não falta nada
P’ra poder assim falar
Em aldeia estás a morar
Encontras-te modernizada.
III
O serviço desta rua
Está feito com perfeição
Eu sou desta opinião
E cada qual terá a sua
Se isto assim continua
Veremos o que acontece
Já falamos para onde apetece
Sem darmos nem um passo
É por isto que eu estendo o braço
Quem te conheceu e quem te conhece.
IV
Tens estradas para viajar
Para outras pequenas aldeias
Muita gente aqui passeia
Já não chegam a ralhar
Quem se ponha a reparar
Estás toda modificada
Estou-te a ver iluminada
Dou-te os meus elogios
Estás uma vaidosa e com brilho
Já não te pareces nada.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Fundamento "A Rainha Santa Isabel" 5.º Episódio

REI D. DINIS 80
Rosas? Em Janeiro?

RAINHA SANTA ISABEL 81
Sim são! Rosas

REI D. DINIS 82
Duvido. Exijo ver.

REI D. DINIS 83
Oh! Bendito Deus.
Parece milagre!...

REI D. DINIS 84
Fiquei mesmo deslumbrado
Não posso compreender
Como isto pode ser
Rosas por todo o lado
Vinha mal intencionado
Cheio de um mau rancor
Troquei ódio por amor
Isabel tu és uma santa
A tua bondade é tanta
Perdoai-me o meu mau humor.

RAINHA SANTA ISABEL 85
Temos que perdoar uns aos
outros meu querido.

REI D. DINIS 86
Valha-me o anjo Rafael
Sinto-me muito doente
Estou mesmo impaciente
Minha querida Isabel
Para mim é como o fel
Se eu tivesse que morrer
O que vem do reino a ser
Pelo nosso filho governado
Até pode não ser respeitado
Sinto o meu corpo a tremer.
(Fala para a Rainha. Está deitado e doente)

RAINHA SANTA ISABEL 87
Meu querido, meu querido Dinis
Não estejas assim a pensar
Deus te há-de melhorar
Eu seria uma infeliz
O nosso querido filho diz
Que te quer pedir perdão
Como tens bom coração
Deve-lhes tudo perdoar
Queres que o vá chamar
Para te beijar a mão?

REI D. DINIS 88
Sim! Vai-o lá chamar
Quero-lhe fazer um esclarecimento
Quero que tenha conhecimento
Como há-de governar
Se eu tiver que findar
Fica ele para me substituir
Deve sempre perseguir
Engrandece a Nação
Sinto-me a diminuir.

RAINHA SANTA ISABEL 89
Vou Já chamá-lo

RAINHA SANTA ISABEL 90
Afonso!

INFANTE D. AFONSO 91
Minha mãe!

RAINHA SANTA ISABEL 92
Vem cá meu filho.

RAINHA SANTA ISABEL 93
Meu filho venho-te chamar
E deves-me obedecer
O teu pai quer-te ver
E também te quer falar
Dever de bem escutar
E cumprires o que ele disser
Livrar-te-á de Lúcifer
Se ao teu pai pedires perdão
Serás o futuro Rei da Nação
Meu filho! Vai, vai a correr.

INFANTE D. AFONSO 94
Sim minha mãe! Irei.

RAINHA SANTA ISABEL 95
Vem meu filho. Aqui.

INFANTE D. AFONSO 96
Meu querido pai, perdão
Perdoa o teu filho amado
Sim eu fui um desvairado
Tinha má compreensão
Tive um mau coração
Era o ciúme a mimar
Hoje já sei perdoar
Já tenho outra idade
Já sinto em mim bondade
A mãe tem me sabido ensinar.

INFANTE D. AFONSO 97
Eu peço perdão a Deus
Pelo meu mão pensamento
Já tenho outro procedimento
Peço perdão pelos pecados meus
Sei que os pensamentos seus
São só para bem de mim
Pai, perdoa-me sim?
Para Deus lhe perdoar
Pai quero-o abraçar
E dar-lhe beijos sem fim.

REI D. DINIS 98
Basta meu filho!

REI D. DINIS 99
Se a ti não te perdoasse
Não perdoava a ninguém
Meu filho considera bem
Eu morreria se não te falasse
Mal de nós se não passasse
Tudo pára neste mundo
Eu quase já moribundo
Pretendo todos perdoar
Ficas tu filho a governar
Ficas tu mandando em tudo.

Estive à uns Anos no Hospital

S. Tiago Maior
Manuel Romão Mendes – “Ti Romão” (71 anos) Ano 1977
I
Oh linda Vila Viçosa
Estás cercada de olival
Ainda p’ra mais grandeza
Tens um Palácio Real.
II
É uma vila importante
É um jardim de beleza
Tem hospital p’ra pobreza
Tem colégio p’ra estudantes.
III
É de todas um encanto
É mais linda que uma rosa
Própria família bondosa
Foi Deus que lhe deu o dom
Tudo quanto tem é bom
Oh linda Vila Viçosa.
IV
Tem uma grande avenida
Ao cimo tem uma igreja
Para que toda a gente veja
Onde ela foi construída
Tem serrações há saída
Tem um lindo carrascal
Muitas quintas ao redor
Mas ainda a melhor
Está cercada de olival.
V
Tem uma grande muralha
Que fizeram os antigos
Para se defenderem dos inimigos
Quando haja qualquer batalha
Devia ter ganho medalha
O inventor da fortaleza
Mas ainda a melhor defesa
Para defender a nação
Tem nossa senhora da Conceição
Ainda p'ra mais grandeza.
VI
Quando o Rei aqui habitava
E um regimento de cavalaria
El-Rei todos os dias
No seu cavalo montava
Suas tropas visitava
Fazendo adeus ao pessoal
Ficou fama em Portugal
De ser a Vila Superior
Ainda para mais valor
Tem o Palácio Real.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Acerca da Moça Quando Namora

S. Tiago Maior
Manuel Romão Mendes – “Ti Romão” (71 anos) Ano 1977

Por muito que um homem corra
Faça lá o que fizer
Mesmo que velhinho morra
Nunca chega aonde quer

Acerca da moça quando namora
I
A moça quando namora
Não assenta a fazer nada
Anda para dentro e para fora
Todo o dia da semanada.
II
Começa logo a cantar
Pela manhã quando se levanta
Para afinar a garganta
Ainda antes de almoçar
III
Depois vai-se pentear
Leva ali mais de uma hora
Quando se vai dali embora
É lá quando lhe convém
O que quer é parecer bem
A moça quando namora
IV
A casa começa a varrer
E se a varrer continua
Em ouvindo alguém na rua
Abala logo a correr
Enquanto o serviço anda a fazer
Anda muito desembaraçada
Mas se ouve alguma resmalhada
Olha para dentro e para trás
Só pensando no rapaz
Não assenta a fazer nada
V
À tarde compõe-se, vai-se ver ao espelho
Com seu vestido da moda
Com saia de pouca roda
Por lado de cima dos joelhos
Com soquetes p’los artelhos
Pareço mesmo bem agora
Mas se o rapaz ainda se demora
E ela já está empampoilada
Já não pode estar parada
Anda p’ra dentro e p’ra fora.
VI
Qundo chega o namorado
Tem-se passado a tardada
Já tenho a vista cansada
Tenho que pôr umas lentes
Para andar para trás e para diante
Todo o dia da semanada

Agora começa a discutir o namorado com a namorada

Sabe Deus como eu cá venho
Amor do meu coração
Eu bem sei que tens razão
Mas eu também a tenho
Qual é que era o meu empenho?
Era estar ao pé de ti
Assim tu fosses para mim
Que era o que eu mais desejava
Nunca a nossa amizade acabava
Sem a morte lhe dar fim.

Agora responde ela

Já tu vens feito fingido
Eu bem sei o que tu queres
Tu pensas que as mulheres
São todas fracas do sentido?
Vai tomar um comprimido
Tu o que tens é dor de barriga
Eu não vou nessa cantiga
Nem hoje nem amanhã
Se por acaso não te convém
Arranja outra rapariga.

Agora responde ele

Arranjo outra rapariga
Olha o teu descaramento
Com esse procedimento
Já estás disposta p’ra brigas
Dá-me cá já as ligas
Que te comprei lá na festa
A quem se contará uma destas
Senão fosse aqui à tua porta
Davas uma cambalhota
Com um murro aí p’la testa

Agora responde ela

Eu disse isso a mangar
Para ver o que tu dizias
Para ver o que tu fazias
E já te estás a zangar
Tomara eu já casar
Tu cuidas que é mangação
Se isto desse na tua mão
Ainda esta tarde
Ia falar com o padre
Para irmos á confissão

Agora responde ele

Se comigo estás ofendida
Eu já te pesso perdão
Para o resto da minha vida
Toma lá a minha mão.

Agora responde ela

A tua mão recebi
Com um amor profundo
Já que te tenho a ti
Não quero mais nada no mundo.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Entrei na casa da tia Gertrudes Sapatoa

Aldeia da Venda-Santiago Maior
Miguel José da Silva “Ti Miguel” (65 anos) Ano 1977

MOTE
Entrei à da tia Gertrudes Sapatoa
Estando na sua casa sozinha
Porque não vai para Lisboa?
Porque sou muito velhinha
I
Já vai acabando tudo
O que se chama tradição
O fim de uma civilização
Até acabou o Entrudo
Aquele que fizer um estudo
Que tenha uma memória boa
Vê que a trombeta já soa
Embora devagarinho
Vou andando o meu caminho
Entrei à da Gertrudes sapatoa
II
O homem anda doente
Com uma doença moral
Não há remédio p’ro mal
Porque atingiu toda a gente
Tudo sai do Continente
Deixando a sua terrinha
Marchando assim em linha
E sem destino qualquer
Deixando a sua mulher
Na sua casa sozinha.
III
São as melhoras da morte
E dizem estar a melhorar
Já está tudo a abalar
Desde o Alentejo ao norte
Porque têm bom transporte
E cá a vida não é boa
Há por aí tanta pessoa
Que se anda sempre a queixar
Faz favor de explicar
Porque não vai para Lisboa?
IV
E são dias de vingança
É uma forma tamanha
Que uns vão para a Alemanha
Outros abalam para a França
Mas tal não é a mudança
A gente não adivinha
Deixei tudo quanto tinha
Deixei mãe e dixei pai
Mas porque é que você não vai
Porque sou muito velhinha

Fundamento "A Rainha Santa Isabel" 4.º Episódio

RAINHA SANTA ISABEL 60
Ai daquele que tentar ferir o próximo
Esse será precipitado pelo chão
Abaixo, ardendo num fogo eterno.
Venho mandada por Deus.

RAINHA SANTA ISABEL 61
A paz seja convosco.

RAINHA SANTA ISABEL 62
Amai-vos uns aos outros.

RAINHA SANTA ISABEL 63
Nós somos todos irmãos
Somos todos portugueses
Não causai nem um reveses
Daí meus filhos as mãos
Todos os tentares são vãos
Contra a nossa soberania
Comemoremos este dia
Todos têm o perdão
São todos da mesma nação
Tenhamos alegria.

RAINHA SANTA ISABEL 64
Meu filho agora para ti
A tua mãe escutai
Pede perdão ao teu pai
Ele te perdoará sim
Quem perdoar hoje aqui
Deus lhe dará o perdão
Dá-lhe meu marido a bênção
Como é habitual
Queremos paz em Portugal
Todo o Povo é Cristão.
(Fala para o filho e este deixa cair a espada. Seguidamente vai ajoelhar junto da mãe e beija-lhe as mãos)

INFANTE D. AFONSO 65
Querida mãe! Só a tua bondade me acalmou. Perdão! Perdão! Perdão querido pai!

REI D. DINIS 66
Dou-te sim o perdão, por agora condicional e só à hora da minha morte te darei o perdão definitivamente, se me o pedires novamente.

INFANTE D. AFONSO 67

Obrigado meu pai!

REI D. DINIS 68
Companhia! Retirar para os vossos quartéis.

SOLDADOS (todos) 69

Viva a nossa Rainha e o nosso Rei D. Dinis.

INFANTE D. AFONSO 70

Querida mãe tu és uma santa
Bem digo a tua virtude
Quis lutar e não pude
A tua virtude é tanta
És na terra uma planta
Que Deus tem para proteger
Não faço o que penso fazer
Querida mãe dá-me perdão
Tens um bondoso coração
Não deixaste sangue corre.

RAINHA SANTA ISABEL 71
Meu filho tu tem cuidado
Que podes o céu perder
Não deves assim proceder
Só tu serás coroado
Não andes preocupado
Ninguém te tirará a coroa
És a única pessoa
Que és legitimado
Com fé vive sossegado
Sempre com a ideia boa.

Infante D. Sanches 72
Minha mãe vivo com medo
Que me podem vir matar
Meu irmão foi-se revoltar
Eu vou retirar para Toledo
Evito assim enredo
E lá estou mais sossegado
Não espero ser coroado
Isso nunca podia ser
Nada mais tenho a fazer
Não quero viver preocupado

Amante (do Rei D. Dinis) 73
Sim meu querido filho
Eu faço-te companhia
Já não esperamos em ser dia
Pode haver algum sarilho
Novo caminho eu trilho
Vamos já pôr a andar
Para Toledo vamos morar
Lá estamos em segurança
De o poder se alcançar

RAINHA SANTA ISABEL 74
A paz seja convosco! Irmãos de Cristandade.

ESCRAVO 2.º 75
E contigo também Rainha

RAINHA SANTA ISABEL 76
Aceitai! Comei e descansai
E vamos ao nosso Deus implorar
Por nós e por todos rezar
Que Deus alívios nos dai
A bênção do Senhor recai
Sobre as vossas alminhas
Sempre nas orações minhas
Eu peço perdão por nós
Pedimos graças divinas.
(Fala no Templo para os escravos e dá-lhes pão)

VASSALO 2.º 77
O nosso Rei!

REI D. DINIS 78
O que trazes no manto Senhora?

RAINHA SANTA ISABEL 79
São rosas meu senhor!

Fundamento "A Rainha Santa Isabel" 3.º Episódio

REI D. DINIS 40
Vejo sempre tudo na mesma
O dinheiro está-se a gastar
Tenho que os vassalos castigar
O trabalho vai a passo de lesma
É claro está na mesma
Não pode isto assim ser
Isto é para se fazer
Façam os escravos trabalhar
Só tenho coisas que me incomoda
Quero mais trabalho ver.
(Fala para os escravos e vassalos)

VASSALO MOR 41

Tem razão meu altivo Rei
Mas a culpa não é minha
Tem culpa a nossa Rainha
Eu tudo a Vossa Majestade explicarei
Sou vassalo obedecerei
Que é a minha obrigação
A nossa Rainha trás pão
A todos os escravos vai dar
Estão horas sem trabalhar
Sempre em oração.

VASSALO MOR 42
A minha ideia consome
Mas não me posso opor
Nos escravos tem amor
Dá pão a quem tem fome
Desculpe que eu informe
Resigna-lhes o seu sofrer
Até lhe dá água para beber
A quem água lhe for pedir
Não me pode a mim competir
A nossa Rainha repreender.

REI D. DINIS 43
Pois isso vai acabar
Está o tesouro a enfraquecer
Hei-de-a aqui vir repreender
Todo o pão lhe hei-de tirar
Faz os escravos trabalhar
Estão à tua disposição
Tens o chicote na mão
Pois não é só para se ver
O Templo tem que se fazer
Ainda este Verão.
(Fala zangado com o Vassalo Mor)
Vassalo Mor 44
Tudo obedecerei meu senhor.

INFANTE D. AFONSO 45
Soldados e oficiais
Devem-me obedecer
Estamos perigo a correr
Todos com atenção escutais
Antes que cheguem os ais
Devemos de proceder
Temos que já resolver
Antes que seja tarde
Meu pai Real Majestade
Quer entregar o poder.

INFANTE D. AFONSO 46
Sabem que tem um filho bastardo
E querem-lhe a coroa entregar
E se ele fica a reinar
Fica tudo arruinado
Meu pai anda desvairado
Com a desavergonhada amante
Corramos já num instante
E eu assumo o poder
Dinheiro mais irão receber
E prendemos o arrogante.

SOLDADO (que avisa o rei) 47
Real Majestade.

REI D. DINIS 48
Há alguma novidade?

Rei D. Dinis 49
Tola!

SOLDADO (que avisa o Rei) 50
Uma revolta meu Senhor
Seu filho Afonso é o chefe
Aviso para que se apresse
A dar guerra ao traidor
Ele trás grande rancor
A luta deve ser de morte
Sua hoste é muito forte
Que ele conseguiu iludir
Temos que a ele resistir
Para fazer o COMPLOTE.

REI D. DINIS 51
Maldito sejas tu filho ingrato
Vai pagar com as penas da lei.

REI D. DINIS 52
Segue-me.

REI D. DINIS 53
Tratem de preparar
Vamos entrar em combate
Com heroísmo se bate
Não há nada a esperar
Vamos ao encontro marchar
Nem a um se dá perdão
A uns traidores da Nação
Quero-os todos degolados
E o chefe feito em bocados
Sigam de armas na mão.
(D. Dinis lala para o exército que o segue com armas na mão)

INFANTE D. AFONSO 54
Soldados preparar
Vamos entrar em combate
Cada um com a sua arte
É preciso bem lutar
Temos que todos exterminar
Não deve haver contemplações
Todos ganharão galões
No fim de se vencer
Eu tenho certo o poder
Vamos liquidar aqueles cães.

REI D. DINIS 55
Já começa a haver perigo
Já vejo as espadas a luzir
Não poderão resistir
Somos mais fortes que o inimigo
Escutem sempre o que eu digo
Quando se anda a combater
Devem o meu filho prender
Que eu o quero liquidar
Ele vem se aproximar
Firmes temos que os vencer.

INFANTE D. AFONSO 56
Ao combate! Liquidar todos.

REI D. DINIS 57
Atacar! …

INFANTE D. AFONSO 58
Lutar até à morte.

RAINHA SANTA ISABEL 59

Baixai as vossas espadas.

Fundamento "A Rainha Santa Isabel" 1.º Episódio

(Começa o fundamento).

REI D. DINIS 1
Tu como Vassalo Mor
Ficas já recomendado
O trabalho está atrasado
A obra que pouco demore
Escolhe pessoal melhor
Quero tudo com perfeição
Os arquitectos que lá estão
Também foram recomendados
Quero os escravos bem vigiados
Segue para a tua obrigação
(Fala zangado e com autoridade)

VASSALO MOR 2
Com sua licença

VASSALO MOR 3
Têm que mais trabalhar
O nosso Rei não está contente
O trabalho não anda p’rá frente
Esteve comigo a ralhar
Têm que se desembaraçar
Isto assim não pode ser
Terei que ainda mais bater
Algum que vá malandrar
O Rei manda-o enforcar
Já sabe, tem que morrer.
(Fala zangado e com o chicote na mão)

VASSALO MOR 4
Nossa Rainha!

ESCRAVO 1.º 5
Água! Agua!
RAINHA SANTA ISABEL 6
Bebi à vossa vontade

RAINHA SANTA ISABEL 7

Aceitai e comei, que ordeno eu.

ESCRAVOS (TODOS) 8
Rainha Santa! Rainha Santa!

ESCRAVOS 1.º 9
Protege-nos bondosa senhora.

RAINHA SANTA ISABEL 10
Tende fé em Deus

RAINHA SANTA ISABEL 11
Orai meus filhos. Que Deus lhes valerá


RAINHA SANTA ISABEL 12
Amanhã os visitarei novamente

INFANTE D. AFONSO 13
Sanches. Estou impressionado
E ando com mau humor
Trago por ti um rancor
Tu ambicionas o reinado
Tu és filho bastardo
Não tens direito a elucidar
A tua mãe é culpada
É uma descarada
Pretende o meu pai dominar

Infante D. Sanches 14
(Filho de D. Dinis e da amante, Isabel de Aragão)

E se o nosso pai entender
Terás que te conformar
Não tens nada a reclamar
Ele dá a quem quiser o poder
É claro se eu merecer
Do pai mais estimação
O povo não diz que não
Ao que o Rei, nosso pai quiser
Ele é que dispõe e quer
Trazes tu má ilusão.

INFANTE D. AFONSO 15
Se eu tenho bem certeza
Que isso vai acontecer
Um dos dois tem que morrer
Tens a morte à Portuguesa
Com a alma semi-presa
Vive a minha mãe coitada
A tua mãe será enforcada
Se eu um dia reinar
E tu vou-te desterrar
Não és meu irmão não és nada.

INFANTE D. AFONSO 16
O meu pai anda iludido
Pela tua mãe desonesta
Mas pouca vida lhe resta
Andas pelo meu pai persuadido
Tu tens o sentido perdido
Pensas um dia ser Rei
Já um conselho te dei
Para deste reino saíres
Aconselho-te a que te retires
Antes que eu te odeie.
(Fala para Sanches, seu irmão bastardo)

INFANTE D. AFONSO 17
Não me trates por irmão
Eu disso tenho desprezo
Tu breve serás preso
E não terás salvação
Minha mãe sofre a paixão
O meu pai faz a maldade
Assim não é um Majestade
Está mau exemplo a dar
Isto um dia há-de acabar
Acaba de verdade.
(Volta as costas ao irmão)

INFANTE D.SANCHES 18
Recuso mais tua fala
Tu não és digno de mim
Pois terás um triste fim
Eu tenho a minha ala
Quem mais bem pensa, mais cala
Já sei o hei-de fazer
Ao nosso pai hei-de dizer
Ele te dará o castigo
Considero-te meu inimigo
Tens de mim tudo a perder.

REI D. DINIS 19
Parece que estás preocupado?
Sanches, meu filho querido
Vejo-te tão abatido
Conta-me meu filho amado
Estás com cara de zangado
Alguma coisa aconteceu
Foi alguém que te ofendeu?
Conta-me que eu te escutarei
Eu o castigarei
O Rei desta Nação, sou eu.
(Fala para Sanches, seu filho bastardo)

Fundamento "A Rainha Santa Isabel" 2.º episódio

INFANTE D. SANCHES 20
D. Afonso me ofendeu
Ele de mim tem ciúmes
Ele tem esses costumes
Diz que não sou filho seu
Contra si se enraiveceu
Disse-me que não sou digna pessoa
Desconfia que lhe tiro a coroa
Depois da sua morte
Diz que é forte
E que a voz dele um dia soa.

INFANTE D. SANCHES 21
Não sei mesmo que fará
Meu querido pai contra si
O que eu compreendi
Que contra si se revoltará
Diz que de acordo não está
De eu também ser seu filho
Que deve de haver sarilho
E que nós temos segredos
Até fiquei cheio de medos
Não deve seguir bons trilhos.

REI D. DINIS 22
É um filho muito ingrato
Aquele meu filho Afonso
Hei-de-lhe dar um responso
Pois isto é um mau acto
Só tu me tens sido grato
Eu tudo por ti farei
Nunca te abandonarei
Não lhe satisfaço a vontade
Sou eu, sou eu a Majestade
Eu o castigarei.
(Fala para Sanches, zangado com o outro filho, Afonso)

AMANTE (do Rei D. Dinis) 23
Dinis meu Senhor
Estou muito preocupada
Ando sempre sobressaltada
D. Afonso tem mau humor
Eu sei que sinto rancor
Pensa que o Senhor lhe tira a coroa
Não está a ser digna pessoa
Ele do irmão tem ciúmes
Ele nem sabe os costumes
E não nos perdoa.

REI D. DINIS 24
Fica descansada meu amor
Tudo há-de ser normal
Sou o Rei de Portugal
Eu sou um grande Senhor
Se o meu filho for traidor
Deve de ser enforcado
Não tem ninguém a seu lado
Para fazer um COMPLOTE
Sou Rei e sou muito forte
Estou muito bem armado.
(Fala para a amante e beija-a)
REI D: DINIS 25
Adeus até amanhã.

AMANTE (do Rei D. Dinis) 26
Meu filho tu tem cuidado
Com o Afonso teu irmão
Ele tem mau coração
Tens o teu pai a teu lado
Mas não andes descuidado
Que ele pode-te matar
Os ciúmes andam-no a dominar
É pelo demónio dominado
Não abales do meu lado
E deixa-o, deixa-o falar.

Infante D. Afonso 27
(filho legítimo de D. Dinis)

Minha mãe estou irritado
Com aquele Sanches malvado
Um dia será enforcado
Aquele filho bastardo
O meu pai é o culpado
Que lhe dá a protecção
Sendo o Rei da Nação
Mau exemplo está a dar
Nem Deus lhe vai perdoar
Nem a mão lhe dar dê perdão.

RAINHA SANTA ISABEL 28
Acalma meu filho querido
Isso de ti são ciúmes
Sabes segundo os costumes
Tu és sempre o preferido
Não andes assim perdido
Deus te recompensará
Teu pai a coroa te dá
Tu serás o Rei futuro
É assim filho, eu te juro
Nunca penses coisa má.
(Fala para o filho com muita ternura)

RAINHA SANTA ISABEL 29
Sei que teu pai muito gosta
Daquele filho bastardo
Legítimo não é considerado
De ti também não desgosta
Teu pai a ti não demonstra
Mas tudo ele por ti faz
Vê em ti que és capaz
De seres o futuro Rei
E queremos sempre paz.

RAINHA SANTA ISABEL 30
Teu pai vem a chegar.

INFANTE D. AFONSO 31
Querida mãe és uma santa
Sempre te hei-de obedecer
Fazes-me as intenções perder
A tua bondade é tanta
Mas eu sinto na garganta
Um nó que me sufoca
O Sanches me provoca
Sente-se protegido
Eu ando enfurecido
Porque a razão me toca.

RAINHA SANTA ISABEL 32
Adeus meu filho! Tem fé em Deus.

REI D. DINIS 33
O Afonso já cá esteve?

RAINHA SANTA ISABEL 34
Já sim … O que aconteceu?
REI D. DINIS 35
Sei que já tem preparado
Uma revolta contra mim
Terá um triste fim
Será enforcado
Um filho contra o pai revoltado
Não é admissível
Até parece impossível
Tanto que eu o tenho estimado
Tenho que andar aquartelado
Parece incrível.
(Fala zangado para a Rainha)

RAINHA SANTA ISABEL 36
Dinis tem paciência
Como Rei desta Nação
Ao nosso filho dá perdão
Ainda é a inocência
Confia na divina providência
Não haverá sangue derramado
Não manches o teu reinado
Pensamos sempre o melhor
Não penses assim que é pior
Deus te tenha abençoado.
(Fala para o Rei com muita meiguice)

REI D. DINIS 37
Sempre me fazes acalmar
Com as tuas santas palavras
Esperanças para esperar
Nunca te poderei pagar
Como recompensar tua virtude
Fiz por nosso filho o que pude
Para ele ser educado
E agora contra mim revoltado
Até o nosso pensar se confunde.

RAINHA SANTA ISABEL 38
São ciúmes já tu sabes!

RAINHA SANTA ISABEL 39
Descansa a tua alma.

domingo, 14 de outubro de 2007

Sinfonia Rústica

Alandroal
Josué da Silva Batista (55 anos)
I
As trindades acabam de cair.
Desce a noite. Há silêncio no montado.
Os pastores dormem já a bom dormir.
Nas “malhadas” também sossega o gado ...
II
O “maltês” que anda à falca faz se ouvir
E o feitor que que ouve os cães está preparado
Não se vá galináceo ali sumir,
P’ra render uns tostões no povoado ...
III
E na loira planície dos trigais,
Onde a luta co’a terra não fenece,
Os “ajudas”, “ganhões” e “maiorais”.
IV
‘Inda a luz da manhã mal aparece,
Levantam-se a pensar nos animais
Enquanto a água para a “açorda” aquece ...

“ZÉ CIGANO” A um Feliz Mendigo ...

Alandroal
Josué da Silva Batista (55 anos)-Ano 1977

Barba cerrada e grisalha,
Um ar sempre prazenteiro,
Percorria o povoado
Gritando nun alto prado:
“Compram-se peles de coelho!”
II
Nunca fez mal a ninguém.
P’ra tudo tinha chalaça.
Mas, perante alguém que sofria
Transformava-lhe o rosto
E a sua voz galhofeira
Mostrava bem que sentia,
Na alma-pura,talvez!-
A dor da melancolia ...
III
Era o velho “Zé Cigano”
Que o rapazio adorava,
Porque lhe contava histórias,
No verão às esquinas das ruas,
Quando a luz em céu estrelado
Melancólica passava ...
IV
Ouvi-lo contar a história
De um velhinho que sofrera
P’ra não maltratar um aio
Que a rico senhor servia,
Era a coisinha mais bela
Que a linguagem singela
Do pobre velho sabia ...
V
Descrevia em pormenor
Tudo quanto lhe ocorria
E, na representação
Da “história” que ia contando,
O pobre velho chorava,
Ria e por fim cantava
Radiante de alegria ...
VI
Mas um dia o “Zé Cigano”
Deixou de ouvir-se na aldeia
E toda a gente o estranhava,
Uns a outros perguntando
Que seria feito dele
Que seria feito dele
Que a sua voz não soava!
VII
Tinha sido vitimado
Por doença mui cruel
E não podia mover-se
Nem gritar por toda a terra
Como antes sempre fizera.
VIII
O rapazio lá passava
Por casa do “Zé Cigano”,
Se é que casa se chamava
O casebre onde vivia
E todos os confortavam
E lhe davam que comer,
Mas ele já não podia
Mais que num gesto agradecer
- Estava prestes a agonia ...
IX
Cerrou os olhos, finou-se
O pobre do “Zé Cigano”
E o lugar ficou mais pobre
Porque um pobre lhe morria,
Pois já não tinha ninguém
Que fosse como ele foi,
Criado sem pai nem mãe,
Sem família, sem ninguém,
E tão ligado às famílias
Que na pobre terra havia.
X
Sempre alegre e prazenteiro,
Na modéstia do seu ser,
Tudo nele era uma graça,
Todo ele era alegria ...
XI
Foi como um anjo do céu
Transformado num mendigo
Que ali viera ensinar
Na forma mais eloquente,
Mais modesta e sem igual,
Que a terra nos pode dar,
Como o amor é singular!
XII
No dia do funeral
Toda a aldeia chorou.
Lá foram pobres e ricos
Acompanhar o mendigo
Que também sobe ensinar
O que Jesus ensinou ...
XIII
Foi o amor a sua arte
Que não vitima ninguém
Mas que é forte e é terrível
P’ra aqueles que dela abusam,
Como se fosse possível
Do ódio tirar partido,
XIV
E, desde que o “Zé Cigano”
Pr’a esta vida morreu
A terra ficou mais pobre
Mas ficou mais rico o céu!

O Almoço da Ceifa

Decorria a época da ceifa. Um pequeno proprietário de Terena, de seu nome Joaquim Dias ,homem de baixa estatura, não fora os muitos anos de trabalho agrícola, e não teria o esqueleto tão curvado, andava ceifando a seara numa sua tapada, defronte ao cemitério, onde hoje existe uma bela casa de traço tipicamente alentejano, com piscina, mandada construir por um emigrante natural de uma localidade próxima.
Chegada a hora do almoço, o proprietário, a esposa e um trabalhador concertado para o trabalho da ceifa, sentaram-se à volta do tarro de cortiça para comerem o cozido de grãos que na noite anterior a esposa do pequeno proprietário havia feito.
A refeição decorria num ambiente de boa harmonia mas, o proprietário estaria mais interessado em que o trabalhador comesse menos e trabalhasse mais.
Quando comeram as sopas e se preparavam para comer o toucinho e a morcela, o proprietário, olhando para os dois companheiros da faina, exclamou;
Bem, nós por aqui ficaremos, eu e a minha mulher e quem mais vergonha tiver.
O trabalhador deixou passar a gracinha, mas disse para consigo.
– O patrão está a referir-se a mim! Nã vejo aqui outr’ alma a nã ser eu!
No dia seguinte à hora do almoço, o proprietário repetiu a mesma chamada de atenção, o que levou o trabalhador a pensar na forma como lhe havia de responder sem o ofender.
– Outra vez? Já t’avio! Pois ê como nã tenho, nem uso dela, comi o toucinho tamém vô comêri a morcela.
O proprietário olhou para a mulher, ficou um pouco envergonhado e desde esse dia, nunca mais “chorou” a comida do trabalhador.
Nota: Esta estória foi-me contada em criança pelo meu pai, nas longas noites de inverno, à chaminé.
Luis de Matos

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Poeta Popular Autor de Fundamentos




Raimundo José Lopes, o Poeta Popular, autor das Brincas de Évora - Ano 1977

Raimundo José Lopes, Poeta Popular, 64 anos, de idade, natural de Évora e residente no Bairro de Almeirim, nesta cidade. Fez a 4.ª classe aos 35 anos e começou a fazer poesia ainda quando era rapaz. Cantoneiro reformado é actualmente guarda-nocturno numa empresa de transportes em Évora. De dia concerta sapatos no bairro onde reside. Apesar desta vida bastante cheia, ainda consegue arranjar tempo para fazer fundamentos, embora já lhe falte um bocado a vista e não ter cabeça como antigamente, estava constantemente a confessar-se.
Para fazer os “Fundamentos” inspira-se na História de Portugal, na Bíblia ou num outro tema que lhe encomendem, distinguindo-se com este género de poesia dos demais poetas populares alentejanos. “Ti” Raimundo, como é conhecido é o único autor de fundamentos, emboratambém faça quadras e sonetos.
Também fez peças para teatro, como a peça “Grupo Exemplar”, em prosa e que a título de exemplo me pareceu importante incluir nesta recolha. Esta compilação, representa como que uma homenagem à vida de poeta de “Ti” Raimundo. É pena que muitas obras se tenham perdido e outras estejam incompletas que o poeta só a muito custo conseguiria terminar. Representam muitos anos de trabalho. Trabalho que se encontrava disperso e com sérios riscos de se perder. A mesma obra encontrava-se repartida por diversas pessoas e locais que em tempo participaram nas Brincas, quase sempre incompleta, pelo que houve necessidade de recorrer sempre a “Ti” Raimundo para completar e até corrigir ou tirar dúvidas numa ou noutra fala.
O Colector, quer aqui deixar expresso o seu agradecimento a todas as pessoas colaborantes e acima de tudo ao poeta popular, pela colaboração que sempre nele encontrou, sem a qual esta recolha teria ficado indubitavelmente mais pobre.