sábado, 10 de janeiro de 2009

A VALENTIA E O SABER DO EGUARIÇO




Foto: Terena Castelo com vista para a Ribeira do Lucefecit e a Ermida de N.ª Sr.ª da Boa Nova - Luis de Matos

Situamo-nos em Terena. Seguindo em direcção ao Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, atravessamos a Ribeira do Lucefécit, caminhamos pela estrada da Barranca de Baixo, atravessamos o Ribeiro do Alcalate, junto ao Pigeiro Velho, onde o Ti Miúdo foi hortelão durante muitos anos, viramos à esquerda subindo a elevação, um pouco mais à frente logo se avista o Monte do Pigeiro. As extremas da herdade perdem-se de vista. No entanto, o Ribeiro do Alcaide e a Ribeira do Lucefécit fazem parte das extremas e cujas margens são guarnecidas pelos muitos frondosos aloendros que florescem nos meses de Junho e Julho em lindos cachos de cores vermelha e branca que contrastam com a vegetação seca ou amortecida pelos calores estivais. Nos terrenos desta herdade existiam montados de azinho e simultaneamente produziam cereais e pastagem para os gados. Actualmente, e ainda bem, tudo foi alterado, nomeadamente a paisagem e cuja agricultura feita à base de regadio sendo a produção, certamente mais rentável. Mas voltamos aos tempos mais recuados.
Nesta herdade, para além de outros rebanhos, existia uma manada de éguas. O Eguariço era um homem ágil, valente e destemido como não havia outro em toda a redondeza, de seu nome José Inácio Gonzaga de Paiva, mais conhecido por Ti Zé Fragas. Vestia calça de cotim ou de saragoça, camisa aos quadrados pequeninos atada com um nó mesmo por cima do cinto largo de cabedal e bota cardada. No Inverno, usava safões e samarra de pele de ovelha preta. Este homem, na sua profissão de Eguariço ou seja o encarregado da manada das éguas tinha deveres de muita responsabilidade e de não menos sabedoria. Os principais eram: guardar e apascentar a manada, reparar nas éguas que estivessem aluadas ou seja, ver as que mostravam excitação genética para as levar ao lançamento ou cobrição, regulando-lhe os saltos pelas horas e intervalos em uso, assistir e dirigir esse acto, para tal tinha que pear a égua e segurá-la pelo cabresto durante a cópula; ter todas as cautelas possíveis na parição das éguas de forma que não houvesse desastre nas crias; tosquiar as crinas e as rabadas das éguas e poldros; velar pela ferragem em véspera da debulha. Neste trabalho, se a manada é grande e os calcadoiros a debulhar são avultados então o Eguariço tem um ajuda extraordinário indicado pelos ganhões.
Como se pode ver o Eguariço era um trabalhador altamente qualificado. Ele tinha também a responsabilidade de amansar as éguas isto é, prepará-las para que ficassem em condições de ser montadas por qualquer pessoa, o que diga-se em abono da verdade não devia ser tarefa fácil.
Segundo dizem, era neste trabalho que também os dotes do Ti Zé Fragas muito se manifestavam, pois fazia-o com muita audácia, sabedoria e orgulho. Dizem os trabalhadores que com ele privaram, montava as éguas, mas todas sem excepção, sem lhes colocar qualquer manta ou cela e muito menos qualquer cabresto galopando a toda a velocidade, segurando-se apenas pelas crinas e guiando o animal com os pés ou quando muito com a ajuda de uma varinha. Certo dia, muito antes da construção da Barragem do Lucefécit, a Ribeira do mesmo nome levava uma grande cheia, cujas águas galgavam as margens para o lado da Barranca de Baixo, o Ti Zé Fragas, como tinha necessidade de passar a ribeira para o lado do Pigeiro, agarrava-se ao rabo da égua, de modo que o animal pudesse nadar à vontade e assim ele passava a Ribeira do Lucefécit, também conhecida pela Ribeira da Boa Nova. Muitas noites o Ti Zé Fragas vinha dormir a casa, em Terena. O seu transporte era uma égua. Montava-se numa qualquer, aquela que estivesse ali mais à mão,o que quer dizer que não a escolhia, (tal era a facilidade este autentico cowBoy alentejano lidava com este tipo de animal), chegava ao Adro da Igreja Matriz (a escassos metros de casa), dava um toque na égua e esta voltava sozinha para a manada. De madrugada, o Ti Zé Fragas regressava novamente para junto da sua manada de éguas para aí fazer mais um dia de 24 horas trabalho. Exactamente. Porque o maioral tinha que estar sempre presente e junto dos animais, não fosse o diabo pregar alguma partida.
O Ti Zé Fragas, deixou-nos a todos ainda muito novo, aos quarenta e três anos de idade. Era realmente um homem valente.
Luís de Matos

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