quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Em Alandroal nasceu um Centro Cultural

Notícias de Évora

15-08-1982

No B.º da Senhora da Glória, em ÉVORA, também há ARTESANATO

Há tanta ideia perdida...

23-06-1982

PEQUENO APONTAMENTO

DE UM PARA OUTRO EBORENSE POR ADOPÇÃO

Notícias de Évora 

26-05-1982

RECORDAR MESTRE SANDES

Notícias de Évora

31-01-1982



LEMBRAM TEATRO VICENTINO CARNAVAL DIFERENTE com "BRINCAS" EBORENSES

A CAPITAL 
23-11-1985


Évora recupera "brincas

1.º Prémio de texto
Diário de Notícias 03-03-1987


"BRINCAS" tornam diferente Carnaval Eborense

Por António Silva da Agência Lusa
Diário do Sul 27-01-1989


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

http://ultramar.terraweb.biz/06livros_LuisdeMatos.htm





SEGUNDA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2012


Guiné 63/74 - P10882: Notas de leitura (445): "Diário da Guerra Colonial - Guiné 1966-1968", por Luís de Matos (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Outubro de 2012:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma viagem à volta do diário de Luís de Matos, que pertenceu à CCAÇ 1590, uma unidade que andou pela intervenção sobretudo na região norte, Ingoré, Suzana, S. Domingos, Sedengal, daí as inúmeras referências aos patrulhamentos, batidas e operações junto da fronteira.
São apontamentos a olhar o humano, a registar as lágrimas de partidas, trata-se de um combatente que se sente com a obrigação de abraçar todos os cometimentos da sua companhia, e daí o cuidado pelo registo das operações, os usos e costumes e o peso da solidão.

Foi graças ao nosso confrade Carlos Pedreño Ferreira que tive acesso a esta peça tão estimável de alguém que não se sentiu predestinado para escrever para a história mas para juntar os feitos de todos os seus camaradas.

Um abraço do
Mário


Diário da guerra colonial, por Luís de Matos (2) 

Beja Santos 

Luís de Matos vai finalmente de férias, em Março de 1967. Quando regressar, incluirá nas suas notas o que se passou na sua ausência: emboscada do seu pelotão entre S. Domingos e Sonco, em 10 de Abril; houve levantamento de rancho em S. Domingos, as refeições iriam melhorar um pouco. Chega de férias em 3 de Maio e tira uma fotografia com o Furriel Ratinho, natural de Cunheira, concelho de Alter do Chão, Segundo Sargento Ramalho, natural de Montoito, ele, natural de Terena, conselho de Alandroal, e o Furriel Zorro, natural de Santo André, concelho de Estremoz. E escreve: “Trouxe comigo na bagagem uns paios caseiros alentejanos, para entregar ao Florimundo Garcia, que a tia Bernarda me pediu para levar ao seu futuro genro”. Em 7 de Maio, S. Domingos “embrulha”. Em 10 de Maio parte para uma batida, não houve contacto. Aqui e acolá há sinais do IN, assaltos a tabancas, minas anticarro, emboscadas. Em 10 de Junho escreve que há uma base guerrilheira que dá pelo nome de S. Domingos, localizada a cerca de 2 quilómetros da fronteira com o Senegal. Parte uma operação para tentar localizar e destruir tal base. Fala em mortes do IN, mas não ficaremos a saber se a base foi destruída. Em 20 de Junho, regista o insólito: “O Mário Silva é do 3º Pelotão que está em Susana. Disse-me que o seu pelotão com mais de 50 Felupes, foi fazer uma operação junto à fronteira do Senegal. O meu grupo de combate ficou instalado do lado de cá, mas os Felupes, armados com espingardas Mauser e catanas, não sei onde foram nem por onde andaram, o que sei é que passado pouco tempo apareceram carregados de frigoríficos, máquinas de costura e algumas cabeças espetadas em paus. Só podem ter ido a uma qualquer aldeia do Senegal, ali mesmo junto à fronteira”. Em 25 de Junho, participa na operação destinada a destruir a base de Campada, junto à fronteira do Senegal. Descreve minuciosamente a progressão. A um quilómetro de Barraca Poilão, o IN embosca mas a reação foi de tal ordem que se pôs em fuga. Encontraram casas de mato há muito tempo abandonadas. Continua a progressão até Cutene Pesse, aqui descobrem 17 casas, mas o IN desaparecera. O IN, sempre que pode, molesta as tabancas da região. Os sobressaltos na região de Susana são constantes. Quando chegam as nossas tropas, as tabancas dão sinais de abandono, é preciso ir buscar as populações ao mato.

Estamos em Julho, o pelotão de Luís de Matos parte para o “paraíso”, de Sedengal. Mais uma vez ele descreve o ambiente. Lançam-se ao trabalho, cortam palmeiras, refazem os abrigos. E escreve: “No Sedengal, praticamente assumi os trabalhos de remodelação do sistema defensivo como se fosse coisa minha. Nós temos de ter um bom sistema de abrigos. A par deste trabalho, também construímos pequenas pontes, pois basta colocar vários troncos de palmeira ao lado uns dos outros, são pequenas melhorias mais favoráveis no dia-a-dia das populações". Percorre a tabanca, vai atento, pretende saber a maneira como eles se sentam, os utensílios que utilizam para cozinhar, como comem e o quê, etc. Visitam as tabancas das redondezas, ele sente-se feliz pelo facto de a sua companhia ter assentado arraiais. Anda a ler obras de Leon Uris e de Jean Lartéguy. Começa-se a fazer uma horta junto à bolanha. Chegou entretanto uma máquina de calcular FACIT, a contabilidade foi revolucionada. Vê-se que há gosto registar as pequenas coisas: "o 1º cabo atirador António Sousa foi promovido a cozinheiro; ao alferes e aos furriéis servem-nos de vez em quando uns bifinhos de gazela como nunca tínhamos comido, acompanhados com puré de batata e salada; os soldados no norte continuam a meter vinho tinto na sopa". E descreve o Sedengal: "é um pequeno aquartelamento, feito à base de abrigos construídos com troncos de palmeira, reforçados com bidões cheios de terra, tudo está vedado com troncos de palmeira e valas. Pelo norte, existe a tabanca com cerca de uma centena de habitantes". Chove torrencialmente e escreve no diário a 29 de Julho: “As chuvadas têm a sua beleza. O cheiro da terra, chilrear da passarada, de que não sei o nome da maior parte deles, a verdura da mata e das ervas são muito diferentes daquelas da metrópole que estou habituado a ver no meu Alentejo”. No Ingoré, não param os patrulhamentos, o IN está cada vez mais destemido, intensifica-se, do lado das nossas forças armadas, a montagem de emboscadas. Continua bem informado do que se passa no Ingoré. Um sargento do quadro explicou ao vagomestre Zorro as vigarices que são possíveis para desviar géneros: "desvio de vinhos, de latas de salsichas, azeite, de volumes de tabaco, sacas de arroz". E filosofa: “Como em todas as guerras, há sempre gente pronta a tirar proveito para si, à custa da desgraça alheia".

Em Agosto realiza-se a operação “Desmamar”, vão duas companhias, um pelotão de milícias e um pelotão de caçadores nativos, progride-se de Ingoré a Canchungo, procurar uma base do IN, nada foi encontrado. Nesse mês, Luís de Matos não ganhou para o susto, houve um grande rebentamento, foi projetado, recompôs-se depressa. Nunca larga o filão das operações em que outros pelotões da sua companhia são envolvidos, fala na ação psicossocial a tabancas como Antotinha, Blanzar e Gunal, os comandantes dos grupos de combate levam folhas de tabaco para oferecer aos homens, o enfermeiro distribui medicamentos e trata os ferimentos. E não esquece datas: “Faz hoje precisamente um ano que na estrada entre Bissorã e Barro, durante uma emboscada de que fui alvo, morreu o condutor Matos, não há vez nenhuma que veja as fotografias das viaturas acidentadas, que não as imagine todas as fumegar, e veja ali o pobre do soldado Matos, cortado ao meio”.

No Sedengal, ele parece o cronista da companhia, para o melhor e para o pior. Viera para o Senegal o alferes Tavares de Almeida, e três furriéis, ele, o Ratinho e o Valeiras. Em Novembro, o Valeiras fazia serviço de sargento de dia e o alferes participou ao capitão que o Valeiras não agira oportunamente numa ameaça de levantamento de rancho. Sucederam-se as punições, o Valeiras foi transferido para o Pel Caç Nat 58, passou 25 meses na Guiné. E dá o seu ponto de vista sobre a situação do Valeiras: “Veio da Casa Pia, onde aprendeu vários ofícios. Não é propriamente um operacional, visto que a sua especialidade é de armas pesadas. É um moço calmo e descontraído, não faz mal a uma mosca. Logo havia de apanhar pela frente um alferes que não lhe perdoou aquela pequena falha. Que diabo, estamos todos no mesmo barco. E quem é que não comete erros?”.

Em finais de Novembro, o seu pelotão regressão ao Ingoré, o leitor volta a ter descrições detalhadas das flagelações a Ingoré e mesmo ao Ingorezinho. Sempre dado aos pormenores, desenha aspetos pitorescos, a começar pelos soldados do seu pelotão. Alguns exemplos: “O Gomes é um moço que mais parece um gigante. Com o seu metro e noventa e cento e vinte quilos de peso, tem força que nem um leão. Paciente e calmo, encara toda esta vida com um sorriso estampado no rosto. Gosta de beber o seu copo e quanto mais melhor. O Soeiro é bom rapaz, franzino, anda sempre com um sorriso miudinho como que a querer espantar o medo por onde quer que ande, ou a querer ser simpático para toda a gente. Parece-me que mal pode com a G3”. Em finais de Abril, partem do Ingoré para Bissau. E escreve a 10 de Maio: “É sexta-feira. Embarquei de regresso à metrópole, a bordo do paquete Niassa. Abraços e mais abraços”.

E assim termina um relato singelo e sincero, tudo adubado com fotografias, a lista da CCAÇ 1590, a lembrança dos que já partiram, o hino de “As Gazelas”, da autoria do 1º Cabo Escriturário José Manuel Pereira Ciblote, as ementas a bordo, tudo minudências de quem quer homenagear toda a CCAÇ 1590.
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 28 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10872: Notas de leitura (443): "Diário da Guerra Colonial - Guiné 1966-1968", por Luís de Matos (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 30 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10877: Notas de leitura (444): Um reparo à descrição da Operação Nebulosa inserta no livro "Alpoim Calvão - Honra e Dever" (Jorge Félix)

3 comentários:

Tony Borie disse...
Olá Mário.
Gostei do resumo, são vivências que nós todos passámos e é bom, e devemos recordar.
Continuo a dizer que espero os textos, onde contas as tuas passagens, com detalhes miudinhos, pelas terras da Guiné, depois de sairmos de lá.
Será que estão nos teus livros?. Se estão, diz-me como posso comprá-los, daqui onde me encontro.
Um abraço, e que 2013, seja um ano bom para todos.
Tony Borie.
Arménio Estorninho disse...
Caros Amigos Luís de Matos/Beja Santos, Saudações.

Foi com muita curiosidade que li estes resumos do "Diário da Guerra Colonial-Guiné 1966/68," neles são mencionados locais e populações que me são "familiares."

Como lembranças e coincidências havidas entre a minha Ccaç. 2381 "Os Maiorais" e a Ccaç. 1590 "As Gazelas", que no entanto nunca se cruzaram, mas frequentaram os mesmos "trilhos:"

A Ccaç. 2381, no final de Abril/68, embarcou em comboio especial de Abrantes(RI 2) para Lisboa, tendo em 01 de Maio/68 embarcado no NTT Niassa e com destino a Bissau. Chegado deu-se o transbordo para a LDG 101, que seguio com destino a S. Vicente-Ingoré e tendo chegado a 08 de Maio/68.

De forma vice-versa, a Ccaç. 1590, em finais de Abril/68 embarcou em LDG no Porto de S. Vicente Ingoré e de regresso à Metrópole em 16 de Maio/68 tendo desembarcado no Porto de Lisboa.

Com Abraços
Arménio Estorninho 
Rogerio Cardoso disse...
Amigo Luis Matos
Também não me posso esqueçer, que a viatura em que o teu condutor Matos faleceu, era a viatura Paulucha (espécie de auto-metralhadoura), construida por mim e meu pessoal, nome que batisei em homenagem à minha filha nascida em Nov.-64.
Um abraço amigo
Rogerio Cart643-AGUIAS NEGRAS

sábado, 3 de setembro de 2016


Parte superior do formulárA CASA QUE SABIA FALAR

Há muitos, muitos anos, na aldeia de Lavre, moravam pessoas muito pobres. A maior parte das casas da aldeia, também não tinham grandes condições para as pessoas habitarem. Mas havia uma das casas que, realçava de todas as outras pela sua beleza e grandeza. Pertencia a uma família muito rica da aldeia e que morava em Lisboa. Os donos dessa casa, de vez em quando, vinham visitá-la. Passavam ali uns dias a descansar, ou para tratar de assuntos relacionados com as suas propriedades e depois voltavam novamente a Lisboa.

Um dia, numa dessas vindas à aldeia, depois de cumprimentar a família, a casa perguntou:

-       Então por onde têm andado, que há tanto tempo não os via?

-       Ora, então não sabes que estamos a viver em Lisboa? E estamos muito bem, respondeu o homem.

 Depois acrescentou: Diz-me cá, ó casa. Então agora tens cá a residir umas pessoas? Quem é que te deu autorização para receberes cá toda esta gente? Nunca me perguntastes nada, nem tão pouco à minha irmã, se essas pessoas podiam ou não vir para cá morar!

-       É verdade. Tens razão. Eu também não as pude impedir. São pessoas que vieram de outras terras próximas para trabalharem na agricultura. Um dia apareceram aqui a dizer que não tinham casa para morar com os filhos e uma vez que eu não tinha cá ninguém, dei-lhe guarida. E olha, a partir daí foram ficando, ficando e nunca mais de cá saíram. O que é que eu podia fazer? Nada, absolutamente nada. Assim, pelo menos tenho companhia e sempre vão cuidando de mim, uma vez que tu e a tua irmã, quase nunca cá estão.

 Estas pessoas sempre me vão dando uma limpeza e de vez em quando, até fazem umas pequenas obras que preciso. É certo, que também é para melhor conforto delas. Mas olha, se queres que te diga, não me parece nada mal. Antes pelo contrário, até acho muito bem.

-       Sim, a nós também. Mas podias, ao menos ter-nos dito alguma coisa, que a gente certamente não se importava, respondeu o dono da casa.

-       Como é que querias que te dissesse, se isto foi tudo tão de repente?

E, para mais com as dificuldades que há de comunicações… Não te esqueças que estamos numa aldeia do Alentejo. Não estamos em Lisboa!

-       Mas ao menos as pessoas cuidam de ti! É isso não é? Tratam-te bem? Fico contente que assim seja.

-       Sim, muito bem, muito bem. Gostam muito de mim. Tenho companhia durante todo o dia e as crianças, quando não estão na escola dão-me uma grande alegria. Andam sempre a correr por todo o lado e, devido às suas brincadeiras farto-me de rir com elas. Moram todos no primeiro andar. São quatro casais e nove crianças. Dois casais têm três filhos cada um. Um outro casal tem dois filhos e o outro tem só um filho. Este último é o casal mais novo. Todas as crianças andam na escola. É só subirem a rua, e pronto, passam lá o dia todo. Almoçam no refeitório da escola e à tarde vêm para casa. Fazem os trabalhos escolares e depois vão brincar para o pátio.

-       Estou contente por estares feliz, disse o dono da casa.

-       Sim, sim, muito. Queres saber mais? Quando chega o Natal, vivo uma alegria como não vivia há muitos anos. As crianças que aqui moram convidam todas as crianças da aldeia. É certo que nem todas vêm. Mas a maioria vem. Fazem pinturas, desenhos e no final, com a ajuda dos professores, montam uma exposição que é o encanto da maior parte das  pessoas da aldeia.

 As crianças divertem-se muito e ainda levam uns chocolates para casa para pôr no sapatinho na noite do Menino Jesus. Faz-me recuar no tempo. Há muitos anos atrás, também metias uns chocolates nos sapatinhos dos teus filhos. E eles, logo de manhãzinha, muito antes do sol nascer corriam para a chaminé a ver o que o Menino Jesus lhes tinha deixado. Lembras-te?

-       Se me lembro…

-       Outra coisa te quero dizer. Como sabes, no meio do pátio está o poço que é muito fundo e tem sempre muita água. Um dia, os pais das crianças juntaram-se e pediram-me autorização para colocar uma chapa de ferro para o tapar, porque é um perigo para as crianças. Podem cair lá para dentro e morrer afogadas. Eu dei autorização para que o tapassem, porque, mesmo eu, até fico mais descansada. Transmito mais segurança.

Estavam os dois com esta conversa, quando começaram a ouvir gritar:

-       Socorro, socorro, gritavam algumas crianças! Acudam, gritavam outras.

-       O que é que aconteceu? Perguntava uma das mães das crianças, ao mesmo tempo que tentava acalmar as outras mães.

-       Foi o João que destapou o poço. Com o esforço, desequilibrou-se e caiu lá para dentro. Estava-se mesmo a ver que só poderia acontecer ao João. É muito irrequieto, desabafou o Rui, que era o mais velho. Bom, mas agora o que interessa é socorrer o João.

-       Ai meu querido filho! Quem me acode! E a mãe continuava numa grande aflição a pedir auxílio.

-       Aguenta-te filho, gritava a mãe cá de cima toda debruçada sobre o gargalo do poço. Continua a boiar para te aguentares. Ou segura-te a uma pedra da parede. Não desanimes, que já te retiramos daí! A mãe tentava dar ânimo ao João, que já começava a dar mostras de cansaço.

-       Entretanto, já o pai de uma outra criança, tinha corrido a buscar uma corda bem grande. Não era muito grossa, mas era resistente. Prendeu-a a um ferro que estava preso no gargalo do poço e fazia um arco, onde noutros tempos existiu uma corda com um caldeiro de chapa de zinco que servia para tirar água para dar de beber aos animais e para regar as flores dos canteiros e dos vasos que estavam encostados às paredes do pátio.

O Homem atou a corda à cintura e desceu para agarrar o João que, entretanto já se tinha segurado a uma pedra mais saliente da parede do poço, tentando aguentar-se na água para não ir ao fundo. Cá em cima, todos se debruçavam no gargalo do poço porque queriam assistir ao salvamento do João.

Felizmente que tudo correu bem e não passou de um enorme susto, mas podia ter resultado em tragédia.

Daí em diante, na tampa de ferro que estava a tapar o poço, os pais instalaram uma fechadura e guardaram a chave num sítio que só eles sabiam. E assim, evitaram mais acidentes no futuro.   

-       Como sabes, estamos na Primavera e as crianças gostam muito de brincar no pátio. Com os vasos de flores colocados à volta do poço, os canteiros que existem junto às paredes do pátio e a mimosa que está lá ao fundo que dá flores amarelas e perfumadas, dão-me um grande colorido e uma grande alegria.

Lembras-te quando o nosso Simão dava ali água aos cavalos antes de partir para as touradas?

Era tudo tão bonito!

- Pois era!

- Eram outros tempos. É nisso que estás a pensar e te deixa saudade, não é? Pois, eu bem te conheço, João!

-       Bem, isso é tudo verdade, respondeu o homem um pouco emocionado. Mas estávamos a falar das pessoas. Eu também gosto de as ver. Mas diz-me cá, o que fazem no rés do chão todas estas pessoas da aldeia? Que é um entrar e sair, a todo o instante? Coisa que nunca vi em lado nenhum?

-       Bom, isso é outra história. Queres saber?

-       Claro que quero. Estou aqui para isso. Para saber tudo o que se está aqui a passar. Que eu saiba, por enquanto, ainda sou o dono disto tudo.

-       É verdade, tens razão. Então, vou contar-te: Um dia, umas pessoas vieram cá ter comigo e disseram-me que queriam vender coisas mais baratas para a população, mas não tinham local onde o pudessem fazer. Disseram-me que eram produtos para a alimentação das pessoas e outras coisas que fazem falta em qualquer casa. Então eu pensei: Se era uma atividade tão nobre e como tinha aqui este espaço sem qualquer utilidade, que era o ideal para elas, resolvi ceder-lho. As pessoas disseram-me que muito brevemente, iam começar a vender aqui as tais coisas para governo da vida das pessoas da aldeia.

 E foi assim que tudo aconteceu. O que é que eu podia fazer? Nada, absolutamente nada.

Sabes que mais? Não me posso queixar. Um dia destes, duas ou três  pessoas vieram ter comigo, onde vinha um tal Vinagre. Lembras-te?

-       Sim, lembro-me muito bem. Não é um que andou a trabalhar lá por Lisboa?

-       Sim, é esse mesmo.

-       E depois?

-   Vieram pedir-me autorização para fazerem uma padaria, que incluía um forno para cozer pão para as pessoas de toda a aldeia, porque como sabes, não há cá ninguém que faça pão. E tu sabes bem que, quando cá estás, tens que o ir comprar à cidade. É ou não verdade?

-       Sim é verdade, respondeu o dono da casa.

-       Então, tive de dizer que sim. Disse-lhes que podiam construir o forno do pão. Não vejo motivo por que havia de dizer que não, se até me estão a valorizar. Por que se tu cá estivesses, também fazias o mesmo. Eu conheço-te bem, João. Sei que tens bom coração. Há ainda outra coisa que gostava que soubesses. E antes que o saibas por outras bocas, faço questão em ser eu a dizer-te.

-       Então diz lá.

-       Desde há dias que está cá também a dormir, ali no quarto do primeiro andar, este mesmo aqui à esquina, um homem que veio de Lisboa.

Sim, não faças essa cara de espanto mas, segundo ouvi dizer, está cá por pouco tempo. Se calhar tu até o conheces. Como estás lá para Lisboa… É alto, magro e bem parecido. Tem um bocadinho falta de cabelo e usa óculos grossos. Ouvi dizer que se chama Saramago.

-       Dizes cada coisa… Como é que queres que conheça? Em Lisboa existem muitos homens com esses sinais. E até há pessoas que são muito parecidas com outras. Já ouvi falar desse nome Saramago, mas nunca vi tal pessoa, disse o João.

-       Bom, isso agora pouco interessa. Até achei graça ao nome do homem, por me fazer lembrar as ervas que têm o mesmo nome e que existem aí no campo.

 Dizem que é uma pessoa muito importante. Que escreve, ou não sei quê… que faz livros...essas coisas que eu não percebo lá muito bem. Dizem que veio para cá para escrever um livro baseado numa história da vida do João Serra que foi escrita pelo próprio e está tudo num caderno. Se queres que te diga, eu também acho que deve ser uma pessoa muito importante. Se faz livros, é porque lá tem o seu valor, porque isso não é para qualquer um. Não te parece, João?

-       Sim, e depois? Mas já agora deixa-me dizer-te, para no caso de não saberes. A essas pessoas que escrevem livros, chamam-se escritores.

-       Sim eu sei. Mas queres saber mais? Até esse homem, um dia, sabendo das dificuldades das pessoas que estão cá a morar tinham para construir o forno, de boa vontade emprestou dinheiro. E olha que não foi pouco, porque eu bem vi o valor, com recibo passado, e tudo ali escrito como deve ser. Está lá escrito no recibo que é para ajudar na compra dos materiais destinados à construção do forno. E aquilo que eu vejo com os meus olhos, que como sabes são as minhas janelas e os ouvidos as minhas portas, ninguém me pode desmentir.

E então, foi assim que aconteceu. As pessoas construíram o forno e agora toda a gente está mais feliz. Já podem comer pão fresco todos os dias, sem ser necessário ir comprá-lo à cidade. Essa do pão fresco, se queres que te diga, acho que é um contrassenso. Então, se o pão sai quentinho do forno, como é que as pessoas dizem que é pão fresco? É esquisito não é? Mas que tem piada, lá isso tem.

-       Isso é verdade, disse o João.

-       Então não é bom, que tudo isto tivesse acontecido cá na aldeia? Foi tudo feito para bem das pessoas! De qualquer maneira, eu estava para aqui abandonada e quase sempre sozinha! Ninguém me ligava, e agora sinto que sou útil às pessoas. Elas gostam muito de mim e sou respeitada.



Évora, Novembro/2010                                                                        Luís de Matos