sábado, 31 de janeiro de 2009

O MISTÉRIO DO CÂNTARO DA ÁGUA



Um dia, no Centro Cultural das Hortinhas, à conversa com o ti António Francisco Duarte Dias, mais conhecido por ti António Marono, natural e residente em Hortinhas disse-me que, na década de cinquenta, quando tinha 22 anos foi de carreiro para o monte dos Vecentis, fica ali perto de Terena. Conhece? Claro que conheço, ti António. Então quer lá vêri. Vou-lhe contar uma:
Um dia, estava eu em cima do gargalo daquele poço que fica à roda do rebêro, a tirari água com um caldêro para encher a pipa. Era eu um rapagão. Andava o “Zidoro Guimar” mais o “Pádri Sardinhêro”. António Silva, de seu nome próprio, disse-lhe eu. Esse mesmo. Acho qu’era assim que se chamava. pois. Mas continuando. Andavam a cavári à roda duma azenhêra, prá arrancári.
Diz o “Pádri Sardenhêro”:
– Fujam c’azênhêra vai cairi.
Mas disse aquilo só pra m’assustári. Naqueles tempos difíceis, em que quase não havia trabalho, os homens tinham que puxar pela cabeça para arranjar formas de sobrevivência da família. Ora, o Pádri Sardenhêro, que tinha uns poucos de filhos, não passavam nada bem, o que era normal na época. Então tinha um meloal lá no Monte Inverno, que fica bem perto do Monte dos Vecentis. Se a colhêta fosse boa, sempre dava fartura prá casa e até podia fazer uns tostões pró pão, pagar na mercearia e para beber uns copitos na taberna do Manitas ou do ti Henrique Góis. Vai daí, um dia encontrei-o. Já tinha bebido um copo a mais, vira-se pra mim e, arrastando a voz disse-me:
– Lá no Monte dos Vecentis, ê livrê-te da mórti, (lembrou-se daquela brincadeira da azinheira) mas agora acabo contigo.
– E queria mandar-me pra dentro do poço.
Foi cá uma carga de trabalhos pró convencêri a não fazer aquela asnêra. E de que manêra, pois eu é que pagava as favas ca minha vida.
Pensei pra comigo. Entã nã queres lá veri! O cabrão do padre, (no bom sentido) está com os copos e estou metido numa carga de trabalhos. É qu’ele era implicanti como o caráaaaças. Quando se lhe metia uma coisa na cabeça… Estava a vêri a coisa um pouco feia.
– Deixe-se lá disso, vá lá mas é a vêri do meloal. Olhe q’as lebres comem-lhe os melões, ti Pádri.
Lá o convenci, mas fez-me cá apanhar um calôri! Sim senhori, essa é qué essa.
Quer ver outra dêli?
Claro, ti António, estamos aqui para isso.
O Pádri Sardenhêro, era uma pessoa munnnto engraçada e intligennnti. Nessa época havia fómi. Ainda hoji é conhecida como a época da fómi. E, atã o “Pádri Sardenhêro”, agarrava num cântaro de barro e dezia qu’ ia buscar água, mas era só pra despistári a Guarda. É que nessa época, a Guarda andava em cima dos póbris. Ele trazia-o mas era cheio de favas pra dar de comêri ós filhos. Ora, isto nã lembrava nem ó diabo. Só poderia sair duma pessoa intligenti c´mó Pádri Sardenhêro porqu’ era realmenti uma pessoa munnnto esperta. A necessidadi é mestra d’ engenhos nã é?Claro que é ti António.
Luís de Matos

sábado, 10 de janeiro de 2009

A VALENTIA E O SABER DO EGUARIÇO




Foto: Terena Castelo com vista para a Ribeira do Lucefecit e a Ermida de N.ª Sr.ª da Boa Nova - Luis de Matos

Situamo-nos em Terena. Seguindo em direcção ao Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, atravessamos a Ribeira do Lucefécit, caminhamos pela estrada da Barranca de Baixo, atravessamos o Ribeiro do Alcalate, junto ao Pigeiro Velho, onde o Ti Miúdo foi hortelão durante muitos anos, viramos à esquerda subindo a elevação, um pouco mais à frente logo se avista o Monte do Pigeiro. As extremas da herdade perdem-se de vista. No entanto, o Ribeiro do Alcaide e a Ribeira do Lucefécit fazem parte das extremas e cujas margens são guarnecidas pelos muitos frondosos aloendros que florescem nos meses de Junho e Julho em lindos cachos de cores vermelha e branca que contrastam com a vegetação seca ou amortecida pelos calores estivais. Nos terrenos desta herdade existiam montados de azinho e simultaneamente produziam cereais e pastagem para os gados. Actualmente, e ainda bem, tudo foi alterado, nomeadamente a paisagem e cuja agricultura feita à base de regadio sendo a produção, certamente mais rentável. Mas voltamos aos tempos mais recuados.
Nesta herdade, para além de outros rebanhos, existia uma manada de éguas. O Eguariço era um homem ágil, valente e destemido como não havia outro em toda a redondeza, de seu nome José Inácio Gonzaga de Paiva, mais conhecido por Ti Zé Fragas. Vestia calça de cotim ou de saragoça, camisa aos quadrados pequeninos atada com um nó mesmo por cima do cinto largo de cabedal e bota cardada. No Inverno, usava safões e samarra de pele de ovelha preta. Este homem, na sua profissão de Eguariço ou seja o encarregado da manada das éguas tinha deveres de muita responsabilidade e de não menos sabedoria. Os principais eram: guardar e apascentar a manada, reparar nas éguas que estivessem aluadas ou seja, ver as que mostravam excitação genética para as levar ao lançamento ou cobrição, regulando-lhe os saltos pelas horas e intervalos em uso, assistir e dirigir esse acto, para tal tinha que pear a égua e segurá-la pelo cabresto durante a cópula; ter todas as cautelas possíveis na parição das éguas de forma que não houvesse desastre nas crias; tosquiar as crinas e as rabadas das éguas e poldros; velar pela ferragem em véspera da debulha. Neste trabalho, se a manada é grande e os calcadoiros a debulhar são avultados então o Eguariço tem um ajuda extraordinário indicado pelos ganhões.
Como se pode ver o Eguariço era um trabalhador altamente qualificado. Ele tinha também a responsabilidade de amansar as éguas isto é, prepará-las para que ficassem em condições de ser montadas por qualquer pessoa, o que diga-se em abono da verdade não devia ser tarefa fácil.
Segundo dizem, era neste trabalho que também os dotes do Ti Zé Fragas muito se manifestavam, pois fazia-o com muita audácia, sabedoria e orgulho. Dizem os trabalhadores que com ele privaram, montava as éguas, mas todas sem excepção, sem lhes colocar qualquer manta ou cela e muito menos qualquer cabresto galopando a toda a velocidade, segurando-se apenas pelas crinas e guiando o animal com os pés ou quando muito com a ajuda de uma varinha. Certo dia, muito antes da construção da Barragem do Lucefécit, a Ribeira do mesmo nome levava uma grande cheia, cujas águas galgavam as margens para o lado da Barranca de Baixo, o Ti Zé Fragas, como tinha necessidade de passar a ribeira para o lado do Pigeiro, agarrava-se ao rabo da égua, de modo que o animal pudesse nadar à vontade e assim ele passava a Ribeira do Lucefécit, também conhecida pela Ribeira da Boa Nova. Muitas noites o Ti Zé Fragas vinha dormir a casa, em Terena. O seu transporte era uma égua. Montava-se numa qualquer, aquela que estivesse ali mais à mão,o que quer dizer que não a escolhia, (tal era a facilidade este autentico cowBoy alentejano lidava com este tipo de animal), chegava ao Adro da Igreja Matriz (a escassos metros de casa), dava um toque na égua e esta voltava sozinha para a manada. De madrugada, o Ti Zé Fragas regressava novamente para junto da sua manada de éguas para aí fazer mais um dia de 24 horas trabalho. Exactamente. Porque o maioral tinha que estar sempre presente e junto dos animais, não fosse o diabo pregar alguma partida.
O Ti Zé Fragas, deixou-nos a todos ainda muito novo, aos quarenta e três anos de idade. Era realmente um homem valente.
Luís de Matos

O MISTÉRIO DAS UVAS

Na aldeia de Hortinhas, o Ti Miguel Joaquim Martins Coelho, mais conhecido por Miguel da Deluques, alcunha que deriva por ter vivido no monte do Lucas, foi um pequeno e médio agricultor. Era um homem alto e seco. Usava chapéu preto, colete e botas cardadas. O relógio de algibeira, era um instrumento imprescindível com as suas correntes de prata que usava no dia a dia. Para os dias de festa e para os mais importantes, trocava as correntes de prata por umas de ouro. Como convinha aos homens abastados da época. E o Ti Miguel era um dos homens abastados da aldeia. Era até considerado um homem rico e respeitado. Morava em Hortinhas. Ali mesmo defronte onde é hoje o Centro Cultural mas que na época, tudo era uma tapada. Hoje há uma estrada alcatroada, com passeios de um lado e outro, uma escola primária e uma casa de habitação para a professora. Casas modernas, com todas as comodidades, mas também não faltam as casas típicas da região, o que lhe poderá vir a conferir o título de Aldeia Típica, ou coisa parecida. Existia apenas uma azinhaga por onde só passavam as carroças e o gado. Actualmente, muita coisa mudou. Está uma aldeia adaptada à vida moderna. Na varanda da casa do ti Miguel, existia uma parreira como aliás, é tradição em qualquer monte alentejano, embora hoje a parreira já não exista. Das duas uma. Ou secou ou a arrancaram quando adaptaram o monte às exigências da vida moderna.
O Ti Miguel, tinha dois carreiros a trabalhar na lavoura. Eram eles, o ti Moisés Bico e o ti Miguel Leitão, mais conhecido por Miguel Lampo. Naquela época, os trabalhadores levantavam-se de madrugada para ir buscar o pão prá eira e o Ti Miguel dormia debaixo da parreira. Chegava a noite e vinha a ceia. O repasto era debaixo da parreira. O Ti Miguel só dava uvas como sobremesa, quando elas já não prestavam. Os carreiros pensaram que tinham que comer uvas enquanto elas fossem boas e trataram de meter mãos à obra. Finda a ceia, os carreiros ataram uma parelha com a carroça à outra carroça, mandaram as parelhas embora e esconderam-se atrás das paredes da tapada em frente, que ainda hoje lá existe. Enquanto o Ti Miguel levantava a mesa, entrava em casa para deixar os pratos e o que tinha sobrado da ceia, um dos carreiros, o mais ágil, saltou a parede, atravessou a rua, entrou na varanda do monte e nessa curta ausência do Ti Miguel o carreiro colheu uns cachos de uvas. Ora, o Ti Miguel, depois da ceia, tinha por hábito estender uma esteira de buinho e nela se deitava para dormir debaixo da sua parreira. Quando de madrugada acordava e enquanto não espertava completamente duma noite bem dormida, olhava para a parreira e achava falta de alguns cachos de uvas.
- Pensava para si, o Ti Miguel:
- As uvas estão a desaparecer.
- Ora essa! Mas como é que isto acontece?
- Tenho que apanhar o ladrão! Todos os dias me desaparecem dois cachos de uvas!
- À hora das refeições lá vinha a conversa das uvas. Alguma vez ele desconfiava que eram os carreiros? Nem pensar uma coisa dessas.
Ó Joquina (mulher)! Colheste algum cacho de uvas?
Eu?. Não.
Ó Maria (filha)! Não mexeste nas uvas?
Eu? Não.
E tu Rosa (filha)?
Eu também não.
Ora essa! Então todos os dias me faltam aqui dois cachos de uvas. Ora essa! Tenho que apanhar o ladrão. Mas nunca o conseguiu. O ti Moisés Bico, acabou por fazer umas décimas dedicadas ao ladrão das uvas.
Luís de Matos

Os Burros do Ti Parente

Joaquim Cardoso, mais conhecido pelo “ Ti Parente”, era natural de Terena e solteirão. Era um homem baixo, poderia ter cerca de um metro e meio de altura. Era o que se poderia chamar de, muito dado para toda a gente. Era um pouco brincalhão e gostava de beber o seu copito nas tabernas que na época, abundavam em Terena.
Apesar da sua fraca estatura, pensava ser um homem valente mas veio a provar-se o contrário com uma partida que o Ti Evangelista lhe pregou. O Ti Parente era irmão da minha avó paterna, Mariana Cardoso. Recordo-me que em criança ir chamá-lo à taberna do Ti Quintino para ir jantar ou cear a casa da minha avó, claro que ele tinha sempre um reboçadito para me dar e que deveria custar prá ai meio tostão.
Quando era criança, o meu pai tinha por hábito de me contar estórias, ao canto da chaminé, onde o lume nos aquecia. Contou-me que numa noite de Inverno, o Ti Parente, indo pela estrada da Boa Nova montado num burro e levava outro preso àquele onde ia montado. Ao passar mesmo em frente ao cemitério, o Ti Evangelista tio materno de minha mãe, que estava escondido atrás de uma árvore, que ainda hoje lá está, montou-se no último burro sem o Ti Parente se aperceber, com o propósito de lhe pregar um valente susto. Naquela época, era muito frequente as pessoas terem um certo receio de passar naquele local. Ora, o Ti Parente, também não era excepção, embora tivesse a mania de ser um valentão.
O Ti Parente ao olhar para trás, viu um vulto em cima do último burro. Rapidamente saltou do animal e ó pernas pra que te quero.
O Ti Evangelista gritava a todo o pulmão.
Anda cá ó Parente, anda cá ó Parente. Sou o Evangelista. Qual quê? O Ti Parente já não ouvia nada, tal era o cagaço que dele se tinha apoderado.
Conta-se que o Ti Parente, andou durante muito tempo com uma espingarda para lhe dar um tiro e então esperava-o à porta de casa, para acerto de contas. Mas havia sempre uma vizinha, que avisava o Ti Evangelista da presença do ti Parente.
Felizmente para os dois e suas famílias, nunca aconteceu nada de anormal.
Luís de Matos

O Jogo da Batota

A Sociedade do Grupo Pró Terena, situada na
Rua de Estremoz, encontra-se há muitos anos inactiva e actualmente em ruínas mas durante muitos anos foi ponto de encontro da população Terenense.
Para além da realização dos bailes em épocas festivas, havia um grupo de homens, duma maneira geral os mais abastados que se juntavam à noite para jogar à “batota”.
Nessas ocasiões, havia um homem que, não sendo jogador, os outros deixavam-no assistir ao jogo até ao dia em que começaram a ter conhecimento de atitudes reprováveis do indivíduo, pois contava tudo o que lá se passava. Dizia os nomes dos jogadores e os valores que cada um ganhava ou perdia. Fazia isto só para irritar as mulheres dos jogadores, claro que elas depois zangavam-se com os maridos, provocando assim algum mal estar entre os casais.
Um belo dia, os jogadores combinaram-se todos e estudaram a forma de se livrarem do homem. Foi então que um deles se lembrou, que o dito fulano se deixava dormir enquanto eles jogavam.
Certa noite, quando foram jogar, o tal fulano lá estava e como era normal adormeceu.
Disseram uns para os outros:
– Agora é que é.
O que se encontrava mais perto do candeeiro apagou a luz e fingiram que continuavam a jogar;
– Rei Dama, Valete e foram sempre conversando.
Ao fim de certo, tempo o fulano acordou e muito assustado, exclamou!
– Ai mãezinha que estou cego! Ai mãezinha que estou cego!
Os jogadores abriram a luz, foi um gozo para todos. para além de lhe terem dado um grande correctivo.O dito homem ficou tão envergonhado, que nunca mais apareceu para assistir ao jogo e assim os outros se livraram do curioso e intriguista.
Luís de Matos

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Pequena Homenagem Ao Meu Primo Alberto

Éramos praticamente da mesma idade. Ele com menos um ano do que eu. Nos nossos tempos de meninos brincávamos e fazíamos as nossas diabrices, sempre juntos. Desde esse tempo que nasceu uma cumplicidade para o resto vida. Fazíamos os nossos próprios brinquedos. Não podíamos passar um sem o outro. Naquela época, não havia brinquedos. Eram as crianças que tinham que os fazer, o que nos dava gozo. Fazíamos as nossas próprias espingardas de cana para brincar às guerras. Saltávamos as paredes das tapadas e quintais para nos escondermos atrás das mesmas, para daí atingirmos o nosso amigo ou imaginário inimigo. “Estás preso”, gritávamos e aparecíamos com ar triunfante.
Quando chegava o Natal, lá íamos nós ao musgo para o Presépio da Escola Primária. O musgo era tirado dos troncos das centenárias oliveiras do cerrado ou das paredes de xisto. Como conhecíamos muito bem o terreno que pisávamos, já sabíamos onde poderíamos ir buscar o melhor musgo. Não só porque nos dava um grande prazer mas porque queríamos apresentar o melhor que havia. Penso que queríamos que a nossa participação no Presépio fosse ao mais alto nível. Naturalmente, quem sabe se era até para contentarmos um pouco o professor Cláudio. Nessa época havia muito musgo, pois havia muita humidade. Havia anos que chovia todo o Inverno. As invernias eram grandes. Chovia meses seguidos. Lembro-me bem em que chovia ininterruptamente entre os meses de Novembro e Fevereiro. Os homens não podiam trabalhar no campo para ganhar o sustento da família. Hoje devido à incúria do homem e ao progresso está a provocar ao aquecimento global do planeta, é o que se vê.
Vou empregar um termo muito usual. Um mouro de trabalho. Assenta perfeitamente no meu primo Alberto. Trabalhou dia e noite, como se costuma dizer A maior parte das vezes sempre acompanhado pela sua mulher, a Joana. De madrugada, ainda mal se via, lá estavam eles a ordenhar as primeiras quinze vacas leiteiras que entretanto tinham mandado vir da Holanda. Ao princípio as vacas eram ordenhadas à mão lá na horta, e tinham que ir entregar o leite ao depósito nas Hortinhas, na sua carrinha Mazda vermelha que possuía. Mais tarde, reforçaram a dose com mais cinquenta que importaram do país das tulipas e mudaram-se para o Monte Outeiro. Aí já havia mais espaço. Adquiriram um moderno equipamento de ordenha mecânica. Mas os trabalhos nunca acabavam, antes pelo contrário. A vida era muito dura. O Alberto era novo, tinha força, tinha saúde. Acabada a ordenha, de uma maneira geral tomava o pequeno almoço, punha o tractor a trabalhar e lá ia ele lavrar as suas terras ou de alguém que lhe pedia que fosse lavrar ou semear uma courela ou olival.
Recordo-me no início de ter as vacas, fui passar um ou dois dias com ele lá ao monte, Outeiro, onde residiam. Sempre acompanhei de perto como ele, a Joana e os filhos (quando não estavam a estudar) trabalhavam na sua actividade agrícola.
Num desse dias, estava a família reunida à hora do jantar. Vai um café e um Wisky e mais outro. A conversa estava animada.
– Bem, amanhã tenho que ir para Évora, disse-lhe.
– Já?
– Sim, que a minha vida não é a tua, desabafei.
– Não. Amanhã vás ajudar-me a carregar fardos, que os gaiatos estão na escola, no outro dia vamos apanhar peixe para fazermos uma caldeta e depois já te podes ir embora.
– Nem pensar. Carregar fardos? Então não vez que não tenho força para isso, compadre?
– Diz-me ele:
– Pronto está bem, com um ar um pouco triste mas sempre com um sorriso. Mas tens que me levar o tractor para Évora.
– Olha! Então eu não digo que o rapaz não está bom da cabeça? Já não bebes mais. À não bebes não.
– Sim. Levas o tractor à Lagril para fazerem a revisão.
Era Verão, mas as manhãs eram frescas.
Disse-lhe:
– Tu estás maluco. Então não sabes que nunca conduzi um tractor na minha vida? Já viste que tenho que estar às nove horas no trabalho, levo duas horas até Évora, deixar o tractor na oficina, ir a pé para casa, tomar banho e estar a horas no trabalho? A que horas é que tenho de partir aqui do monte?
Tudo isto era verdade, dizia-me ele. E continuou.
– Então não tens a carta de pesados?
– Sim, mas nunca conduzi um tractor, não tenho prática. E voltou à carga.
– Deixa-te de brincadeira. Aquilo não tem nada que saber. Empresto-te o meu blusão para não teres frio. Olha, levas também um boné para não teres frio à careca. Vás, deixas o tractor na oficina que eu depois combino para o ir buscar.
– Bom, a muito custo, lá me convenceu.
Mas, por outro lado, eu também queria ter o prazer de fazer uma viagem de tractor. Queria saber como era conduzir aquele pequeno monstro. Pensei. Então se vou para Évora, que diabo, porque carga d’água não hei-de fazer este pequeno jeito ao meu primo? Para mais é um gajo que até gosto como se fosse o irmão, que nunca tive? Acertámos então que levaria o tractor para Évora. Fomos deitar. Por volta das cinco da manhã enfiei os sapatos castanhos que tinha levado para a viagem, calça vincada, camisa de manga curta, blusão bem forte para me proteger do frio, boné da Caixa Agrícola e assim iniciei a viagem numa linda figura. Está-se mesmo a ver pelas minhas vestes. Despedimo-nos. Subi para o tractor pronto a receber a última lição de condução e tratei de me pôr a caminho em direcção Hortinhas, Orvalhos, Foros da Fonte Seca, Redondo e finalmente Évora. Em toda a viagem raspei um frio desgraçado, apesar do blusão que me havia emprestado ter dado muito jeito, mas não foi o suficiente. Foi uma viagem emocionante e única. Uma boa experiência, também. Porque é que ele havia de perder tempo, quando tinha lá tanto trabalho no monte?
Entretanto, passaram-se cerca de vinte anos. Nós nunca pensamos na doença, mas quando ela vem a sério, não há nada a fazer. O Alberto era o irmão que eu gostaria de ter tido.
Não houve cura para o teu mal. Estejas onde estiveres, os herdeiros do teu trabalho, manterão o fruto na oliveira e a bolota na azinheira. Os teus campos continuarão a produzir cereal e o teu rebanho continuará a ser alimentado e a reproduzir-se.
Algum tempo antes de lhe aparecer aquela maldita doença, ainda tínhamos brincadeiras com se fôssemos crianças. Não daquelas de brincar às espingardas mas de outra já mais próprias para a nossa idade, ou pensávamos nós que o eram. As nossas mulheres, filhos e outros familiares que por ventura estivessem presentes nos inúmeros convívios familiares, achavam muita graça. Era uma amizade genuína e diria até, legítima de uma vida. Sempre acompanhei o seu sofrimento. Mas, já na fase final da sua doença, quando lhe pegava na mão e ele me a apertava, ao mesmo tempo que me fazia carícias na mão, como a querer falar sem poder e eu, beijando-o na face ou na cabeça, já sem cabelo como eu, devido à idade e as lágrimas a caírem-me ininterruptamente, tal como neste momento, que tenho dificuldade em ver o teclado do computador. Era um grande sofrimento. Sem o querer perturbar, mas dizem que ele se devia aperceber. Ninguém podia imaginar o sofrimento e a dor que me ia na alma e que me vai marcar para o resto dos meus dias. Alguns poderão dizer: Mas que gajo de manteiga. A esses, simplesmente, digo: Estou-me nas tintas para vocês. É o que sinto, e pronto. Ao escrever estas simples palavras, são a melhor homenagem, sentida, que posso fazer ao meu querido primo Alberto, meu irmão.
Finalmente, para a sua esposa. Obrigado por tudo, Joana. Esposa e Mãe. Grande Mulher.
Bem haja! Luís de Matos

UM CASAMENTO NAS HORTINHAS

Recordo-me que os casamentos realizados há muito tempo na Igreja Matriz , em Terena, o adro da igreja enchia-se de curiosos, homens e mulheres, sendo estas em maior número, rapazes e raparigas, todos mortinhos para assistirem à saída do casamento. Como raramente acontecia algo de especial na vila, então um casamento era sempre novidade, muito mais que um baptizado.
- Havia sempre as mulheres mais impacientes; “nunca mais saiem”.
- Devem estar a pagar ao Padre, a fazer o registo diziam algumas.
- Dizem outras; “ lá veem”.
- Faz uma noiva muito bonita, dizem umas; outras dirão “já vi melhori”.
- Olha! “trás olhos de chorar”.
- “ E que chori”. “Que mal faz. Não se faz feia por isso”…
- Há! Olha ó vestido. Reparem, assenta-lhe bem e está na moda.
- E o véu que lindo!.
- Olha Maria, e a grinalda! Linda! Bela prenda concerteza…
- Ó já tenho visto melhor dizem outras.
- Olha! E o noivo! “Rapaz desenxovalhado”. “ É bonito”…. Um pouco sério.
- “Também vem bem vestido”. “Sapato preto e fino”. “Bonito fato! . Sim senhori.
Quando os noivos passavam a porta da igreja e punham os pés na calçada branco ou azul e bordadas atiravam as amêndoas ao ar. Era ver a rapaziada do adro, logo seguidos dos Padrinhos, estes abriam as bolsas de cetim empurrarem-se uns aos outros para ver qual deles apanhava mais amêndoas e rebuçados. Alguns gritavam “prá qui, prá qui”. Outros apanhavam-nas do chão e acompanhavam os noivos como que a servirem de escolta.
Lembro-me do meu primo Alberto me dizer; Tal dia tenho um casamento nas Hortinhas. É uma prima da Joana que vai casar com o João Nunes. É um moço que é deficiente das Forças Armadas.
- É pá ! Isso faz-me logo lembrar a guerra colonial. Sabes como eu sou de manteiga para essas merdas.
- Não interessa. Eu não tenho carro e tu vás levar a gente.
- É pá …Bem, está certo.
- E ficas lá prós comes e bebes.
- Eu? Sem ser convidado?. Nem penses nisso. Não conheces o ditado que diz que a casamentos e baptizados só vão os convidados?
- Há! Isso prá li não conta compadre. É hábito que o condutor seja considerado um convidado.
- Bom, chegou o dia, lá apareci para levar o Alberto, a Joana os dois filhos (Zé e Sérgio). Quando cheguei ao local combinado já lá estava o Zé Catita e foi ele que acabou por os levar no seu velho Wolkwagem 1200 azul, enquanto o meu peugeot 104 levava outras pessoas que também não tinham transporte.
- Dizia-me o Alberto: Olha, tu levas essas pessoas que aquilo lá é tudo gente boa. Eu falo com os meus compadres, digo que és meu primo e acabou-se.
- Acabou-se não. Então não conheces o ditado que….
- Deixa-te lá de ditados! Tal é isto hã!.
Devo dizer que os familiares dos noivos foram umas pessoas extraordinárias. Da maior simpatia que pode haver. Todo o pessoal do casamento. Foi de uma simpatia extrema. Duvido que noutra qualquer localidade haja tanta hospitalidade. Isto marcou-me para sempre. Se calhar é por isso que tenho muita consideração pelo pessoal das Hortinhas. São pessoas sempre bem dispostas e sabem receber quem vem de fora.
Luís de Matos

segunda-feira, 7 de julho de 2008

segunda-feira, 23 de junho de 2008