sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O Manuel dos Santos

Manuel dos Santos Amaro de Almeida, ou simplesmente o Manel dos Santos como era conhecido. Por ter nascido no dia de Todos os Santos, foi baptizado em homenagem àquele Dia. O Manel dos Santos sempre foi solteiro. De muito novo foi para Lisboa para exercer a profissão de vendedor/caixeiro. Como bom alentejano, nunca esqueceu a sua terra, os seus familiares e amigos. Era meu primo em terceiro grau. O Manel dos Santos era o que se poderia chamar de “um gentleman”. Pessoa muito educada para toda a gente, fosse criança, novo ou velho. Nunca ouvi um palavrão que saísse da sua boca. Tinha uma cultura mediana. Bom falador. Conseguia manter uma conversa com algum nível. Quando se reformou, ainda novo, foi viver para Terena para fazer companhia à mãe, a minha tia Maria, senhora já de idade avançada.
O Manel dos Santos, conhecia Lisboa como poucos homens da província a conhecem. Quando calhava em conversa sobre qualquer local onde se precisasse ir, ou até para testar os seus conhecimentos, o Manel dos Santos, logo prontamente dizia:
– Fica em tal parte. Apanhas o eléctrico ou o autocarro número tal que vás lá ter. Para quem como eu, viveu alguns anos em Lisboa, tinha oportunidade de confirmar que batia tudo certo.
Tudo isso ele, deixou para trás, mas nunca esqueceu a capital onde ganhou o sustento durante muitos anos. Via-se nele um brilho nos olhos quando se falava de Lisboa. Um brilho, como quem está enamorado e por lá deixou toda a sua juventude. As primas, (minha mãe e tias) com mais idade do que ele e com mais dificuldade de movimentos, muitas vezes pediam-lhe que lhe fizesse um favor. Um simples recado de umas para outras, uma ida à farmácia, uma marcação de consulta médica, uma ida à Câmara do Alandroal para pagamento da água, ou à EDP para pagar a luz, ida à padaria, eu sei lá, tanta coisa que ele ajudava a resolver. Em Terena andava sempre a pé. E olha que há percursos bastante íngremes, como a Ladeira do Adro. Quando ia à sede do concelho, ia de boleia. Havia sempre alguém conhecido que o levava.
Em dias de mais movimento e que lhe pedissem, lá estava também a dar uma ajuda nas tarefas de apoio ao restaurante do primo Inácio. O bom do Manel dos Santos estava sempre disponível para ajudar qualquer pessoa e sem pedir nada em troca, o que nos tempos que correm é raríssimo. Só os homens de coração grande, têm essa grandiosidade de alma.
O único trabalho remunerado que lhe conheci em Terena, foi o de vender jornais que, uma livraria de Évora, diariamente lhe faziam chegar à mão. E aí sim, ele tinha a sua compensação monetária. Não era por dinheiro que o fazia. Não senhor. Até porque ele tinha as suas propriedades, das quais recebia rendas. Mas por reconhecer que a leitura de um jornal, era e continua a ser um veículo de cultura. E, como as pessoas em Terena não liam jornais, ele achava que era preciso haver alguém que prestasse aquele serviço à população. E tinha razão. Para mais, que durante toda a sua vida se habituou a ouvir os ardinas da capital, o que ele fazia era absolutamente normal. Fazia-o sem qualquer complexo.
Entretanto a livraria em Évora fechou, e acabou-se aquela tarefa. Desde então, não há em Terena quem venda um jornal. Os interessados terão que se deslocar à sede do concelho para os adquirir. ou pedir a alguém que lhe o compre. O Manel dos Santos deixou-nos. Partiu numa daquelas grandes viagens sem regresso. Para o outro mundo, como se costuma dizer. Mas de certeza, que esteja lá onde estiver, ele está bem, porque só praticou o Bem. Aos setenta e poucos anos, partiu.
A todos nos deixa muita saudade.
Luis de Matos

sábado, 5 de janeiro de 2008

Favas Catadas

Numa das minhas idas Terena, algumas vezes, no meu regresso a Évora, faço uma pequena paragem no Centro Cultural das Hortinhas para aí tirar um petisco, daqueles que a Felizarda sabe fazer muito bem ou comprar uma garrafita de água para a viagem e ser pretexto para dois dedos de conversa com alguns amigos. Numa dessas ocasiões, foi-me contada uma pequena história.
Diz-me o Piteira e para quem não conhece, é um pequeno construtor civil que mora nos Orvalhos. Homem dos seus cinquenta anos, magro, alto. de farfalhudo bigode e bom falador.
- No tempo em que a lavoura era feita com parelhas de muares, o ti Parente e o ti Domingos Crespo, também da Aldeia de Orvalhos eram carreiros à dum lavrador qualquer, que não me soube identificar, mas de certeza que era ali perto da aldeia. Contou-me que o ti Domingos Crespo quando ia dar a ração às bestas, tratava de catar uma porção de favas, o que fazia com que andasse sempre com os bolsos cheios para ir comendo. O ti Parente pensou em pregar-lhe uma partida ao ti Domingos, mas os outros companheiros, avisaram-no.
- Parente, olha que eles têm lá um macho, que é bravo “pra valeri”, que espezinha as pessoas todas, o melhor é estares “queto”. Espezinha-te todo e morde-te, vás a “veri”.
- Mas eu “nan” tenho medo. Era o que mais havia de “faltari”. “Atan nan” vez quê tenho que fazer alguma coisa? Dizia o ti Parente.
Vai daí, o que é que vocês pensam que ele inventou?
- Pegou em duas ferraduras e fazia barulho com elas, que mesmo parecia o macho a andar. Diziam os outros carreiros:
- Ó Domingos! Olha que vem aí o macho.
- E o Parente a meter medo ao Domingos Crespo.
- Quando este se apercebeu que era o Parente, logo pensou em pregar-lhe também uma partida.
- O Domingos Crespo abriu a “perciana” e meteu duas moscas vivas, que são duma raça “munto picanina”, que são brutas, nunca largam os animais. Picam que se fartam. É que são mesmo brutas hã e meteu-as, dentro duma caixa de fósforos e colocou a caixa dentro da almofada.
- O Parente assim que se deitava, as moscas faziam um grande zumbido junto aos ouvidos, o que fazia com que este não conseguisse dormir.
- “Ca” diabo se passa aqui? Voltava novamente a pôr a cabeça na almofada, mas o zumbido continuava. Claro, cedo se apercebeu que era partida do companheiro Domingos. Ficou bruto, mas não deixou de ter a sua graça.
Luís de Matos

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Oh! Rancho de Cabeção - Despedida

Cabeção
Luís Cunha Canas
I
Oh Rancho de Cabeção!
Oh gente da mocidade!
Trago dentro do coração
Uma tão grande saudade ...
II
Nem sabes o que senti
No dia em que te deixei.
Quando me achei sem ti,
Nesse dia até chorei.
III
Muitos ranchos eu já vi
Como tu não há igual
Serás sempre, para mim,
O melhor de Portugal.
IV
Também fui teu companheiro
Nalgumas tardes de glória
Também fui como um guerreiro
Para te dar a vitória.
V
Já não sou teu componente
Mas sou como teu irmão
Quero ser da tua gente
Quero ser de Cabeção.
VI
És rancho das multidões
O rancho da simpatia
Alegras os corações
Que não têm alegria.
VII
De tudo tenho saudades
Tanta ... das tuas cantigas,
Desses alegresrapazes
E das lindas raparigas.
VIII
Eu quando morrer
Ter gravado no coração
O nome de pertencer
Ao Rancho de Cabeção.
IX
Do trajo que eu vestia
E do meu grande cajado
Desses dias de alegria
Já tudo está terminado.
X
Venho dar-te a despedida
Saída do coração
Ai que saudadesquerida!
Adeus Rancho de Cabeção!

Nota:Estas quadras foram escritas por um componente do Rancho que foi trabalhar para Lisboa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

As Minhas Mãos Calejadas

ILHAS – ARRAIOLOS
António Luís Figueiras “O Poeta Caldas” 67 anos (Ano 1977)

MOTE
As minhas mãos calejadas
Cansadas com produzir
Sofreram tantas noitadas
Que hoje me fazem carpir.
I
Desde a mais tenra idade
Que labuto nesta vida
Travo uma luta renhida
Para viver com dignidade
No campo e na cidade
Andaram sempre empregadas
Quantas vezes esfaceladas
Nas arroteias da serra
Rasgaram o ventre à terra
As minhas mãos calejadas.
II
Lidaram com o arado
Picaram no boi ronceiro
E em cima do sobreiro
Manejaram o machado
Todo o meu sonho dourado
Era amar e construir
Assim posso garantir
Que são dum bom português
Estas mãos que aqui vês
Cansadas com produzir.

“Farrapos da minha vida”
III
Pelos campos dadejando
Ao som de doces cantigas
Ceifei as louras espigas
Que a terra mãe foi criando
A minha enxada gastando
Conchegando as milharadas
Famintas e regaladas
Minguam de dia a dia
Com o rigor da invernia
Sofreram tantas noitadas.
IV
Fui um escravo instrumento
Das aves que rapinando
O suor nos vão sugando
Para seu esbanjamento
Findará este tormento
Quando deixar de existir
Sinto o meu corpo a ruir
É algum cancro decerto
São as chagas em aberto
Que hoje me fazem carpir.

No Monte do Cabidinho

ILHAS – ARRAIOLOS
António Luís Figueiras “O Poeta Caldas” 67 anos (Ano 1977)
I
No Monte do Cabidinho
Num modesto quartinho
Nasceu o Porfírio Caldeiras
Filho de modestos pais
Que viveram entre trigais,
Cheios de trabalhos e canceiras.
II
Nos primeiros anos de infância
Revela ser uma criança
De recursos excepcionais;
Na escola entre os parceiros
Foi sempre dos primeiros
Era o orgulho dos pais.
III
Tirando a quarta classe
Logo no seu peito nasce
O sonho de ser professor,
Mas os pais são os primeiros
Sem recursos financeiros
Que sofrem o dissabor.
IV
Profírio quer estudar
Mas tem que ir trabalhar
Ó prós campos guardar gado,
Pede a protecção a Deus
Pois quer ajudar os seus
Com seu modesto ordenado.
V
Pastando ovelhas no prado
Vê-se encostado ao cajado
Sempre com livros na frente
E uma voz do seu retiro
Diz-lhe: estuda Porfírio!
Pertences à lusagente.
VI
Com sacrifícios sem par
Vai a sua chance tentar
Mas com fé cheio de vigor
O nosso herói lusitano
Tira agora o quinto ano
Mais tarde sai professor.
VII
Não pode parar agora
Porque outro sonho o devora
Que lhe dita o coração
Se um sonho realizastes
Tu que a professor chegastes
E a doutor porque não?
VIII
Renuncia a divertimentos,
Emprega todos os momentos
Só no curso que o consome
Atingiu o seu planeta
Por isso tem uma etiqueta
Que lhe indica agora o nome.

Ouvi Chorar um Operário

ILHAS – ARRAIOLOS
António Luís Figueiras “O Poeta Caldas” 67 anos (Ano 1977)
Quadras feitas no ano de 1937

MOTE
Numa grande capital
Ouvi chorar um operário
Numa rua sobre a lama
Num torturante calvário.
I
Vivia à pouco ainda
Numa casinha modesta
Tendo o coração em festa
Junto a uma filhinha linda
Por uma sina fatal
Penetra no seu casal
Um mal contagioso
Deram-lhe o nome de leproso
Numa grande capital.
II
A sua dor infernal
Lentamente o perseguia
E o pão de cada dia
Foi-lhe faltando afinal
Já sem ter um real
Para pagar ao boticário
Neste país lendário
Que tanto tem brilhado
De miséria rodeado
Ouvi chorar um operário.
III
Já sem os ter que empenhar
P’ra pagar ao senhorio
Cheio de fome e frio
Saía a mendigar
Certo dia vê passar
Um opolente de fama
Pelo seu nome chama
E auxílio lhe pediu
E ao estender-lhe a mão caíu
Numa rua sobre a lama.
IV
Esse burguês retirou
Cheio de orgulho e vaidade
Algema da sociedade
Nem auxílio lhe prestou
Quando a filhinha chegou
Lhe puxa pelo vestuário
Já marcava o calendário
A morte de um desgraçado
Morreu lama abraçado
Num torturante calvário.

O Pobre Trabalhador

ILHAS – ARRAIOLOS
António Luís Figueiras “O Poeta Caldas” 67 anos (Ano 1977)
MOTE
O pobre trabalhador
Um produtor da humanidade
Não lhe ergue um momento
Com honra e dignidade
I
Na cidade ou no deserto
Trabalho cheio de agonia
Sem ter uma regalia
Esse homem puro e recto
Tem o seu lar repleto
De miséria luto e dor
Ele que é um produtor
De tudo o que a terra cria
Cai com fome em pleno dia
O pobre trabalhador.
II
Dedicado e laborioso
Sem honras e desvaneios
Enchendo os cofres alheios
Cai por fim tuberculoso
Esse burguês orgulhoso
Que vive na ociosidade
Cheio de dinheiro e vaidade
Ostenta o seu brasão
E deixa morrer sem pão
Um produtor da humanidade.

Nesta quadra estão os
pedaços da minha vida

III
Sem cessar um instante
É escravo desta forma
Para receber a reforma
Mendiga de monte em monte
Nesse viver inconstante
Ninguém ouve o seu lamento
Já sem forças sem alento
Consegue pegar no malho
É um mártire do trabalho
Não lhe ergem um monumento.
IV
Técnicos e engenheiros
Estudam este problema
Aliviem-no com a sua pena
Ministros e financeiros
Estes são verdadeiros
Erros da sociedade
Deiam a liberdade
A quem tanto se consome
Para os filhos matar à fome
Com honra e dignidade.
Vivia e
Sentia e sofria

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Ó Botas de Um Aldrabão

S. Pedro da Gafanhoeira
Bernardino Barco Recharto, 48 anos (Ano 1977)


MOTE
Ó botas dum aldrabão
Que me fizeram coxear
Trago no pé um calão
Já não as posso aturar.
I
Já fiquei escandalizado
Com as botas delicadas
Ao dar tantas caminhadas
Fizeram-me um calo trilhado
Eu com elas tenho gozado
Fica-me de recordação
Já perdi toda a animação
O causador não sei quem é
Já me lixaram o pé
Ó botas dum aldrabão.
II
Sempre tenho sofrido
E tudo me dá abalo
Com o diabo do calo
Trago o pé tão dorido
Cada vez mais ofendido
Disso não me quero lembrar
Às vezes me fazem arreliar
Quando penso no engano
Ó botas dum real cigano
Que me fizeram coxear.
III
Dóem-me bastante as orelhas
Quando os calos me mordem
Armam tamanha desordem
Atingem-me as sobrancelhas
São piores do que as abelhas
Quando ferroadas me dão
Arrematando fico eu então
A minha grande coxeira
Com a volta da brincadeira
Trago no pé um calão.
IV
Tenho querido obedecer
À reza dos sapateiros
Nada são pantomineiros
Estou agora a conhecer
Querem é então fazer ver
Como sabem trabalhar
Se lhe mando assento deixar
Mais eles o roubam às botas
Hoje tenho as pernas tortas
Já não as posso aturar.